| Texto
retirado do Reformador - novembro /1999, transcrito
do número de novembro de 1950
Dois de Novembro Almerindo
Martins de Castro
"O dia de Finados” não tem origem
em ensinamentos dos Espíritos. Derivou da festa
católico – romana de 1º de novembro
– "Dia de todos os Santos".
Quando da destruição dos templos pagãos,
em Roma, um entre todos foi poupado, porque constituía
obra –prima de arquitetura e riqueza. Construído
por Marco Agripa, denominava-se – Panteão
e nele, a 1º de novembro, era celebrada, pelos
pagãos, com excessos, a "festa de todos
os deuses". O Papa Bonifácio IV obteve-o,
por doação do Imperador Focas e fê-lo
purificar, recolhendo a ele os tesouros e despojos
mortais das catacumbas dos cristãos e consagrou-o
a Santa Maria dos Mártires. Nesse templo (que
estivera fechado durante dois séculos) Gregório
IV, em 835, instituiu em antítese, a "festa
de todos os santos", em homenagem aos santos
que não tinham culto em dia destacado no calendário,
universalizada depois para todo o orbe católico.
Mas, para que não ficassem esquecidos ante
Deus os fiéis da Igreja e os pecadores, foi
estabelecido que no dia seguinte, 2 de novembro, se
fizessem no templo orações em intenção
desses mortos.
Só em 998, dez séculos depois do Cristo,
o Abade da Ordem dos Beneditinos, em Cluny, instituiu,
em todos os mosteiros da Ordem, na França,
a "comemoração dos mortos",
o "dia de finados", nesse 2 de novembro,
culto que a Santa Sé aplaudiu e oficializou
para todo o Ocidente. Assim foi o mundo profano levado
a cultuar os seus mortos (outrora enterrados nas igrejas
e em "campo santo") num dia determinado,
quiçá na ingênua, ilusória
esperança de que os Espíritos desencarnados
fruiriam venturas celestiais, recebendo, nas covas
das necrópoles, as flores e as luzes das velas,
que, não raro, exalam hipocrisia e iluminam
as trevas das maldades e rancores de quem as acende.
O tempo decerto conseguirá esculpir nos corações
o ensinamento dos mestres da espiritualidade, fazendo
com que as criaturas regressem à sincera e
modesta maneira de encarar e reverenciar o nascimento
e o decesso dos seres na face da Terra, práticas
desvirtuadas pelas deturpações dos interessados
e dos ignorantes. Os antigos tinham intuição
ou ensinamentos bem mais aproximados do verdadeiro
modo de interpretar o sentido da vida e da morte dos
seres humanos.
Heródoto (o denominado – Pai da História)
diz que, na Trácia remota (território
cujas fronteiras estão hodiernamente diluídas
numa das províncias da Turquia), o nascimento
de uma criança reunia a família em torno
do berço para, por entre lágrimas e
tristeza, lamentar as provações a que
viera o recém-nascido; enquanto que o falecimento
de um ente querido era saudado jubilosamente, na antevisão
de que o Espírito liberto iria fruir as venturas
e galardões do Além.
O Espiritismo contemporâneo veio encontrar
o automatismo dos costumes e estipulações
seitistas, consuetudinárias, que obscurecem
de algum modo o lídimo sentido espiritual da
vida e da morte; mas, suavemente, sem contundir a
sinceridade dos que ainda não evoluíram
para a integral espiritualidade, irá encaminhando
as Almas para a verdadeira comunhão com os
chamados mortos.
Não está nos cemitérios o mundo
dos Espíritos. Ali apenas podem permanecer
transitoriamente os cegos desesperados, cujo passamento
não os pôde desligar da matéria
em decomposição. Fora dali, no indefinível
templo do nosso coração é onde
devemos orar pela paz e pelo esclarecimento dos Espíritos
liberados do corpo. Mas, principalmente, pelos sofredores.
Os Espíritos de Luz, aqueles que misericordiosamente,
ajudam os grilhetas da Terra, descem pela escada espiritual
das nossas preces, dos nossos pensamentos de abnegada
solidariedade com os chagados da alma, que gemem nos
ergástulos da dor e do remorso, com os surdos
e cegos, que ainda não ouviram, nem lobrigaram
as harmonias iluminadas da Verdade que as "vozes
do silêncio" entoam para glória
de Deus e bênção dos arrependimentos.
Em cada dia da existência, nas horas de recolhimento,
oremos pelos tristes, pelos abandonados que, na desolada
noite de sua provação, não conheceram
amor, carinho, consolo, bálsamo para as suas
dores de alma.
Deixemos os cemitérios onde se dissociam
as moléculas da carcaça humana, e pensemos
no Mundo do Alto, de onde tudo vem para a Terra e
aonde sobem, de regresso, as refrações
de todos os diferentes mundos dispersos no Infinito.
Espiritualizemos os estágios da existência
terrena, mantendo o recôndito do nosso ser em
ressonância com o mundo espiritual de amanhã,
vivendo em harmonia com os imperativos naturais da
matéria, conservando, porém, o Espírito
alertado para a devida obediência às
leis que regem, nas trajetórias das vidas sucessivas.
Ante a morte do corpo, não nos impressionemos
com o fogo-fátuo, que é luz da matéria
e que não pode ficar dentro da cova; busquemos
o santelmo, Luz do Alto, que se acende no cimo dos
mastaréus, na vastidão dos mares, com
as fosforescências que têm contato nas
rutilâncias das claridades celestiais.
Não façamos treva onde a vida se ilumina;
não choremos ante o corpo inerte, porque o
Espírito se está movendo no júbilo
da libertação. Os espíritas não
podem esquecer o simbólico ensinamento do Mestre:
"...deixai que os mortos enterrem seus mortos"
(Mateus, 8:22).
A comemoração que, rotineiramente,
se celebra, a dois de novembro, deve ser substituída
pela permanente comemoração dos - vivos
verdadeiros- porque a noite da morte do corpo é
a alvorada esplêndida do Espírito, despido
da negra libré do cárcere, imergindo
nas suaves, eternas claridades da aurora redentora...
Ana Gaspar
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