Não. Perdoar independe de esquecer. Uma coisa nada
tem a ver com a outra, são coisas distintas –
até porque não somos alienados. Temos no cérebro
uma memória que registra todos os fatos, por isto quem
perdoa não tem que, necessariamente, esquecer do agravo
sofrido. O que é preciso, na verdade, é esquecer
no sentido de diluir a mágoa, a raiva ou o ressentimento
que o fato gerou, caso contrário o perdão é
superficial ou até mesmo ilusório.
Esse tipo de esquecimento é extremamente benéfico
para quem sofreu algum tipo de agressão, porque a energia
gerada, a cada instante em que se revive o fato infeliz, aumenta
a ferida que se formou e numa verdadeira roda viva acumula
novo e desnecessário sofrimento. Tanto isto é
uma verdade que a própria ciência da psicologia
diz a todo instante, atestando que o esquecimento da mágoa
por si só vale como uma excelente psicoterapia, pois
que...
O apego à ofensa propicia ao ofendido a oportunidade
de carregar sozinho a chaga em que ela se constitui.
A diferença está naquele que realmente perdoa
e consegue liberta-se daquela parte pesada da lembrança
a ponto de não mais sofrer ao relembrá-la. Daí,
como diz Divaldo Pereira Franco: “Perdoar é bom
para quem perdoa.”, ou seja, quem perdoa livra-se do
fardo triste que carregava e quem foi perdoado nem sempre
alcança a mesma graça de vez que assumiu um
ônus pelo qual responderá, ainda que perdoado.
Alguém diria: “mas então prevalece a Lei
de Talião*?” E responderíamos: Absolutamente
que não! Prevaleceria e prevalecerá sempre a
misericórdia divina, a Lei de Causa e Efeito, segundo,
a qual Deus nos propicia o ensejo de resgatar nossos erros,
ou dívidas, como querem alguns, valendo lembrar que
esse pagamento não acontece necessariamente pela dor,
especialmente quando o ofensor se arrepende do at que praticou,
podendo assim anular seu débito pela força do
amor e doação que dispensar a outrem.Vemos isto
no Evangelho de João, quando ele afirma que: “O
amor cobre uma multidão de pecados”.
Quanto a Lei de Talião, embora absurda e abominável
a nossos olhos, era uma necessidade daquela época em
que o homem era bárbaro, época em que o homem
tinha muito pouca consciência do que era Amor e Respeito,
e que só era contido pelo medo dos castigos, tão
ou mais horríveis que o ato praticado.
Foi essa uma das grandes razões da vinda de Jesus ao
nosso Planeta. Uma das partes mais lindas de sua missão
foi justamente mudar a concepção de um Deus
tão bárbaro quanto o homem, ensinando sobre
um Deus justo... Mas infinitamente bom. Severo... mas infinitamente
misericordioso. Um Deus que a tudo perdoa, mas que deixa ao
sabor do livre arbítrio de cada um a responsabilidade
de suas atitudes e o aprendizado que elas possam trazer.
Ainda enfocando as benesses de que é alvo aquele que
perdoa, lembramo-nos que Emmanuel, Espírito de grande
sabedoria, numa psicografia do nosso bom e inolvidável
Chico Xavier, nos esclarece em “O Consolador”,
questão 337:
“Concilia-te depressa com o teu adversário”
– essa é a palavra do Evangelho, mas se o adversário
não estiver de acordo com o bom desejo de fraternidade,
como efetuar semelhante conciliação?
- Cumpra cada qual o seu dever evangélico, buscando
o adversário para a reconciliação precisa,
olvidando a ofensa recebida. Perseverando a atitude rancorosa
daquele, seja a questão esquecida pela fraternidade
sincera, porque o propósito de represália, em
si mesmo, já constitui uma chaga viva para quantos
o conservam no coração. ”
Vemos aí, embutida nas palavras de Emmanuel mais um
alerta a considerar; aquele que busca sinceramente o perdão
já está fazendo dignamente a sua parte, ainda
que o ofendido se recuse. Quando aquele que concede o perdão
não deve se ater ferrenhamente ao que vai ser feito
do perdão que concedeu, pois já fez a sua parte,
também aí, o que se seguir é problema
do perdoado.
Sabemos que mesmo com todo estes conhecimentos muitas vezes
perdoar é um aprendizado difícil, que, não
raro, requer um esforço muito grande. Mas por isto
mesmo é divino, é o caminho da porta estreita
que vale a pena enfrentar, pois se o próprio Cristo
nos disse que devemos perdoar “setenta vezes sete”é
porque em sua divina sabedoria sabia que não só
o ofensor, mas também o ofendido possui fragilidade
de caráter e igualmente ser perdoado setenta vezes
sete.
Para concluir lembramo-nos de que... esquecendo ou não,
se o perdão é algo muito importante para o perdoado,
é ainda muito mais para aquele que tem a felicidade
de conseguir perdoar, porque...
Quem perdoa já cresceu no amor... Quem humilde e sinceramente
pede perdão... Caminha para o mesmo crescimento.
Doracy Mércia De A. Mota
Bibliografia. O
Consolador – Emannuel e Chico Xavier
O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec * Olho por olho e dente por dente.
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