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Segundo conta
Ravenscroft, a lança teria sido forjada por
ordem do antigo profeta Finéias para simbolizar
os poderes mágicos inerentes ao sangue do povo
eleito*. A lança já era, pois, antiga, quando
Josué a teria nas mãos, ao ordenar aos soldados
que emitissem aquele som terrível que fez ruir
os muros de Jericó. Diz-se que essa mesma lança
o rei Saul atirou sobre o jovem David num impulso
de cólera e ciúme. Herodes, o Grande, também
teve em seu poder esse talismã, quando determinou
o massacre das crianças. Foi como mandatário
de seu sucessor, Herodes Antipas, que governou
do ano 4 antes do Cristo até 39 da nossa era,
que um oficial empunhou a lança, como símbolo
da autoridade, com ordens de quebrar as pernas
de Jesus crucificado.
Ao chegar à cena o contingente
de guardas do templo, os soldados romanos deram
às costas, enojados, enquanto os vassalos do
Sumo-Sacerdote quebravam o crânio e as pernas
dos dois ladrões sacrificados lateralmente ao
Cristo.
Gaius Cassius era, ao que
apurou Ravenscroft, de origem germânica e foi
afastado do serviço ativo por causa da catarata
que atacou seus olhos. Enviado a Jerusalém,
ali ficou como observador dos movimentos políticos
e religiosos da Palestina. Durante dois anos,
acompanhou a atividade de Jesus e, depois, seguiu
o doloroso processo da execução do profeta,
que diziam ameaçar a autoridade de Roma. Impressionou-o
a coragem e a dignidade com que o jovem pregador
suportou o seu martírio. Por outro lado, entendiam
os sacerdotes se indispensável mutilar seu corpo,
pois era absolutamente essencial desmentir sua
condição de Messias, uma vez que, segundo as
escrituras, seus ossos não seriam quebrados
(João 19:36). Gaius Cassius tão impressionado
ficou com o tétrico espetáculo, de um lado,
e com a grandeza do Cristo, de outro, que resolveu
impedir que Jesus também fosse mutilado. E,
assim, esporeou o cavalo na direção da cruz
central e trespassou o tórax do crucificado,
entre a Quarta e a Quinta costela, procedimento
costumeiro dos soldados romanos quando desejavam
verificar se o inimigo, ferido no campo de batalha,
estava realmente morto. Não se sabe ao certo
se Cassius tomou a lança da mão do comandante
judeu, que a trazia em nome de Herodes, ou se
usou sua própria lança. De qualquer forma, a
legenda se criou e se consolidou. Gaius Cassius
se converteu ao cristianismo e passou a chamar-se
Longinus, nome com que continuou sua carreira
através dos séculos. E a arma ficou sendo conhecida
coma a lança de Longinus.
Diz-se dela que representa
um talismã de poder tanto para o bem como para
o mal, mas, ao que parece, somente tem sido
usada como instrumento de conquista e opressão,
pois pertenceu, depois, a Mauritius, comandante
da Legião Tebana, que, com ela nas mãos, morreu
martirizado por ordem de Maximiano, ao se recusar
a adorar os deuses pagãos. Em solidariedade
ao chefe, que morreu cristão, seus 6.666 legionários
também se recusaram, ajoelharam-se e ofereceram
o pescoço à espada. Maximiano decidiu pelo espantoso
massacre, como oferenda aos seus deuses. Assim,
a mais valorosa legião romana daquele tempo
foi sacrificada numa chacina sem precedentes
na História antiga.
Seria impossível retraçar
toda a história da lança, mas sabe-se que ela
esteve em poder de Constantino, Teodósio, Alarico,
Ecius, Justiniano, Carlos Martelo, Carlos Magno,
Frederico Barba-Roxa e Otto, o Grande. Em que
outras mãos teria ela estado e a que propósitos
inconfessáveis serviu através do tempo?
É certo, no entanto, que quem
a cobiçava naquela fria tarde de outono, em
Viena, era um jovem que tinha a impressão viva
de tê-la já possuído alhures, no tempo e no
espaço.
* Não sei se é esse o Finéias, filho
de Eleazar, mencionado em Nímeros 25:7
e Juizes 20:28 ( nota do autor)
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