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Sistemas
(III) – Livro dos Médiuns (Questão
47 a 51)
47) SISTEMA OTIMISTA:
Ao lado dos sistemas que só vêem nos
fenômenos a ação dos Demônios,
há outros que só vêem a dos Espíritos
bons. Partem do princípio de que, liberta da
matéria, a alma está livre de qualquer
véu e deve possuir a soberana ciência
e a soberana sabedoria. Essa confiança cega
na superioridade absoluta dos seres do mundo invisível
tem sido, para muitas pessoas, a fonte de numerosas
decepções. Elas tiveram de aprender
à própria custa a desconfiar de alguns
Espíritos, tanto como desconfiavam de alguns
homens.
48) SISTEMA UNIESPÍRITO
OU MONOESPÍRITO: Uma variedade do sistema
otimista é a crença de que um único
Espírito se comunica com os homens e que esse
Espírito é Cristo, protetor da Terra.
Quando as comunicações são da
mais baixa trivialidade, de uma grosseria revoltante,
cheias de malevolência e de maldade, seria impiedade
e profanação supor que pudessem provir
do espírito do bem por excelência. Ainda
se poderia admitir a ilusão, se os que assim
crêem só tivessem obtido comunicações
excelentes. Mas a maioria deles declara ter recebido
comunicações muito más, explicando
tratar-se de uma prova a que o Espírito bom
os submete a ditar-lhes coisas absurdas. Assim, enquanto
uns atribuem todas as comunicações ao
Diabo, que pode fazer bons ditados para tentá-los,
outros pensam que Jesus é o único a
se manifestar e que pode fazer maus ditados para experimentá-los.
Entre essas duas opiniões tão diversas,
quem decidirá? O bom senso e a experiência.
E citamos experiência, por que é impossível
que os que adotam essas idéias tenham verificado
tudo suficientemente.
Quando lhes advertimos com os casos de identificação,
que atestam a presença de parentes, amigos
ou conhecidos pelas comunicações escritas,
visuais e outras, respondem que é sempre o
mesmo Espírito : o Diabo, segundo uns, o Cristo,
segundo outros, que tomam aquelas formas. Mas não
dizem por que razão os outros Espíritos
não podem comunicar-se, com que fim o Espírito
da Verdade viria nos enganar sob falsas aparências,
abusar de uma pobre mãe ao fingir-se o filho
por ela chorado. A razão se recusa a admitir
que o Espírito mais santo de todos venha a
representar semelhante comédia. Além
disso, negar a possibilidade de qualquer outra comunicação
não é tirar do Espiritismo o que ele
tem de mais agradável: a consolação
dos aflitos? Declaramos simplesmente que semelhante
sistema é irracional e não pode resistir
a um exame sério.
49) SISTEMA MULTIESPÍRITA
OU POLIESPÍRITA: Todos os sistemas que
examinamos, sem excetuar os negativos, fundamentam-se
em algumas observações, mas incompletas
ou mal interpretadas. Se uma casa é vermelha
de um lado e branca do outro, quem a vir só
de um lado afirmará que é apenas vermelha
ou branca e estará ao mesmo tempo errado e
certo; mas quem a vir de todos os lados dirá
que tem as duas cores e só ele estará
realmente com a verdade. Acontece o mesmo com as opiniões
sobre o Espiritismo: pode ser verdadeira sobre certos
aspectos e falsa se a generalizarem, tomando como
regra o que é apenas exceção,
interpretando como tal o que é somente uma
parte. Por isso dizemos que quem desejar estudar seriamente
esta ciência deve aprofundar-se bastante e durante
longo tempo, pois só o tempo lhe permitirá
perceber os detalhes, notas as nuanças delicadas,
observar uma infinidade de fatos característicos
que serão como raios luminosos. Mas se permanecer
na superfície expõe-se a julgar prematuramente
e portanto de maneira errônea.
Vejamos os resultados gerais a que chegamos através
de uma observação completa, e que hoje
formam a crença, podemos dizer, da universalidade
dos Espíritos, porque os sistemas restritivos
não passam de opiniões isoladas:
1º. Os fenômenos espíritas são
produzidos por inteligências extracorpóreas,
ou seja, pelos Espíritos.
2º. Os Espíritos constituem o mundo invisível
e estão por toda parte; povoam os espaços
até o infinito; há Espíritos
incessantemente ao nosso redor e com eles estamos
em contato.
3º. Os Espíritos agem constantemente sobre
o mundo físico e sobre o mundo moral, sendo
uma das potências da Natureza.
4ºncarnados e que ao morrer nos tornamos Espíritos.
5º. Há Espíritos de todos os graus
de bondade e de malícia, de saber e de ignorância.
6º. Estão submetidos à lei do progresso
e todos podem chegar à perfeição,
mas como dispõem do livre-arbítrio alcançam-na
dentro de um tempo mais ou menos longo, segundo os
seus esforços e a sua vontade.
7º. São felizes ou infelizes, conforme
o bem ou mal que fizeram durante a vida e o grau de
desenvolvimento a que chegaram; a felicidade perfeita
e sem nuvens só é alcançada pelos
que chegaram ao supremo grau de perfeição.
8º. Todos os Espíritos, em dadas circunstâncias,
podem manifestar-se aos homens, e o número
dos que podem comunicar-se é indefinido.
9º. Os Espíritos se comunicam por meio
dos médiuns, que lhes servem de instrumento
e de intérpretes.
10º. Reconhecem-se a superioridade e a inferioridade
dos Espíritos pela linguagem: os bons só
aconselham o bem e só dizem coisas boas; os
maus enganam e todas as suas palavras trazem o cunho
da imperfeição e da ignorância.
Os diversos graus porque passam os Espíritos
constam da Escala Espírita (O Livro dos Espíritos,
II parte, cap.I, no. 100). O estudo dessa classificação
é indispensável para se avaliar a natureza
dos Espíritos que se manifestam e suas boas
e más qualidades.
50) SISTEMA DA ALMA MATERIAL:
Consiste apenas numa opinião particular sobre
a natureza íntima da alma, segunda a qual a
alma e o perispírito não seriam distintos,
ou melhor, o perispírito seria a própria
alma em depuração gradual por meio das
transmigrações, como o álcool
se depura das destilações. Na Doutrina
Espírita, entretanto o perispírito é
considerado como simples envoltório fluídico
da alma ou Espírito. Constituindo-se o perispírito
de uma forma de matéria, embora muito eterizada,
para o sistema em causa a alma seria também
de natureza material, mais ou menos essencial, segundo
o grau de sua depuração.
Este princípio não invalida nenhum dos
princípios fundamentais da Doutrina Espírita,
pois nada modifica em relação ao destino
da alma. As condições da sua felicidade
futura são as mesmas, a alma e o perispírito
formando um todo sob denominação de
Espírito, como o germe e o perisperma formam
uma unidade sob o fruto. Toda a questão se
reduz em considerar o todo como homogêneo em
vez de formado por duas partes distintas.
Como se vê, isto não leva a nenhuma conseqüência
e não falaríamos a respeito se não
houvéssemos encontrado pessoas inclinadas a
ver uma escola n ova no que não é, de
fato, mais que uma simples questão de palavras.
Esta opinião, aliás muito restrita,
mesmo que fosse mais generalizada não representaria
uma cisão entre os espíritas, da mesma
maneira que as teorias da emissão ou das ondulações
da luz não dividem os físicos. Os que
desejassem separar-se por uma questão assim
pueril, provariam dar mais importância ao acessório
do que ao principal e estar impulsionados por Espíritos
que não podem ser bons porque os bons Espíritos
não semeiam jamais o azedume e a cizânia.
Eis porque concitamos todos os verdadeiros espíritas
a se manterem em guarda contra semelhantes sugestões
e não ligarem a alguns detalhes maior importância
do que merecem, pois o fundo é que é
o essencial.
Cremos, não obstante, dever dizer em algumas
palavras no que se funda a opinião dos que
consideram a alma e o perispírito como distintos.
Ela se apóia no ensino dos Espíritos,
que jamais variaram a esse respeito. Aludimos aos
Espíritos esclarecidos, pois entre os Espíritos
em geral há muitos que não sabem mais
e até mesmo conhecem menos do que os homens.
Aliás, essa teoria contrária é
uma concepção humana. Não fomos
nós que inventamos nem que supusemos a existência
do perispírito para explicar os fenômenos.
Sua existência nos foi revelada pelos Espíritos
e a observação no-la confirmou (O Livro
dos Espíritos, no. 93). Ela se apóia
ainda no estudo das sensações dos Espíritos
(O Livro dos Espíritos, no. 257). E sobretudo
no fenômeno das aparições tangíveis
que para outros implicariam a solidificação
e a desagregação dos elementos constitutivos
da alma, e consequentemente a sua desorganização.
Além disso, seria necessário admitir
que essa matéria, que pode tornar-se perceptível
aos nossos sentidos, fosse o próprio princípio
inteligente, que não é mais racional
do que confundir o corpo com a alma ou a roupa com
o corpo. Quanto à natureza íntima da
alma, nada sabemos. Quando se diz que ela é
imaterial, devemos entendê-lo em sentido relativo
e não absoluto, porque a imaterialidade absoluta
seria o nada. Ora, a alma ou Espírito é
alguma coisa. O que se quer dizer, portanto, é
que a sua essência é de tal maneira superior
que não apresenta nenhuma analogia com o que
chamamos matéria, e que por isso ela é,
para nós, imaterial (O Livro dos Espíritos,
no. 23 e 82). (1)
(1) O Espírito
é definido no nº. 23 de O Livro dos Espíritos
como princípio inteligente, em comparação
com o princípio material. O nº. 27 explica
que esses dois princípios, tendo Deus como
a sua fonte, formam a trindade universal, princípio
de todas coisas. Isto nos mostra que a concepção,
como vemos pelo conceito moderno de matéria
como concentração de energia. Alguns
estudiosos não compreendem bem esta posição
doutrinária e pensam que matéria e Espírito
são a mesma coisa. Kardec e os Espíritos
negam a concepção abstrata do Espírito,
conforme a teologia e a metafísica antiga,
porque essa concepção torna o Espírito
inacessível ao pensamento humano. Por isso
Kardec afirma que a alma (Espírito encarnado,
que anima o corpo) ou o Espírito (o ser desencarnado)
é alguma coisa. O mesmo acontece hoje na Parapsicologia,
quando Rhine e seus companheiros constatando que o
pensamento não se sujeita as leis físicas,
afirmam a sua natureza extrafísica, evitando
adotar a expressão espiritual, que levaria
muitos a uma interpretação teológica.
O estudante de Espiritismo deve atentar bem para este
problema.(N. do T.)
51) Eis a resposta de um
Espírito a respeito do assunto: “O
que uns chamam perispírito é o mesmo
que outros chamam de envoltório fluídico.
Eu diria, para me fazer compreender de maneira mais
lógica, que esse fluido é a perfectibilidade
dos sentidos, a extensão da vista e do pensamento.
Mas me refiro aos Espíritos elevados”.
Quanto aos Espíritos inferiores, estão
ainda completamente impregnados de fluidos terrenos;
portanto, são materiais, como podeis compreender.
Por isso sofrem fome, frio, etc., sofrimentos que
não podem atingir os Espíritos superiores,
visto que os fluidos terrenos já foram depurados
no seu pensamento, quer dizer, na sua alma. Para progredir,
a alma necessitada sempre de um instrumento, sem o
qual ela não seria nada para vós, ou
melhor, não o poderíeis conceber. O
perispírito, para nós, Espíritos
errantes, é o instrumento pelo qual nos comunicamos
convosco, seja indiretamente, por meio do vosso corpo
ou do vosso perispírito, seja diretamente com
a vossa alma. Vem daí a infinita variedade
de médiuns e de comunicações.
Resta agora o problema científico, referente
ä própria essência do perispírito,
que é outro assunto. Compreendei primeiro a
sua possibilidade lógica. (2)
Resta, a seguir, a discussão da natureza dos
fluídos, que é por enquanto inexplicável,
pois a Ciência não conhece o suficiente
a respeito, mas chegará a conhecê-lo
se quiser avançar com o Espiritismo. O perispírito
pode variar de aparência, modificar-se ao infinito;
a alma é a inteligência, não muda
sua natureza. (3) Neste assunto
não podeis avançar, pois é uma
questão que não pode ser explicada.
Julgais que também que não investigo,
como vós? Vós pesquisais o perispírito,
e nós atualmente pesquisamos a alma. Esperais,
pois. – LAMENNAIS.
(2) Comprenez d’abord
moralement, diz o original. A tradução
geralmente usada: Compreendei primeiro moralmente
é literal, mas não corresponde ao sentido
do texto, pois moralmente não tem, na nossa
língua, todas as acepções do
francês. No original isso quer dizer, segundo
o leitor pode verificar num bom dicionário
francês; segundo as possibilidades do campo
das opiniões ou do sentimento. (Ver, por exemplo,
os dicionários Larousse ou Quillet). (N. do
T.)
(3) O texto francês
diz: Le peris prit peut varier et changer ä l’infinit;
I’âme est la pensée; elle ne change
pas de nature. As traduções, em geral,
são literais, mas não correspondem ao
sentido do texto. La pensée, no caso, quer
dizer inteligência, segundo a proposição
cartesiana vigente na época: o pensamento é
o atributo essencial do Espírito e a extensão
é o da matéria. Consulte-se o verbete
pensée num bom dicionário francês.
Dizer hoje, e particularmente em português,
que a alma é o pensamento equivale a deixar
o leitor em dúvida quanto ao sentido da frase
e quanto ao significado da palavra pensamento Espiritismo,
onde a alma como o Espírito, são o princípio
inteligente e portanto a inteligência em sentido
lato, origem do pensamento. (N. do T.)
Assim, os Espíritos que podemos considerar
adiantados ainda não puderam sondar a natureza
da alma. Como poderíamos fazê-lo? É
pois uma perda de tempo perscrutar o princípio
das coisas que, como ensina o Livro dos Espíritos
(nº. 17 e 49), pertence aos segredos de Deus.
Pretende descobrir, por meio do Espiritismo, o que
ainda não é do alcance da Humanidade,
seria desviá-lo do seu verdadeiro objetivo,
fazer como a criança que quisesse saber tanto
quanto o velho. O essencial é que o homem aplique
o Espiritismo no seu aperfeiçoamento moral.
O mais é apenas curiosidade estéril
e quase sempre orgulhosa, cuja satisfação
não o faria avançar sequer um passo.
O único meio de avançar é tornar-se
melhor.
Os Espíritos que ditaram o livro que traz o
seu nome provaram a própria sabedoria ao respeitarem,
no tocante ao princípio das coisas, os limites
que Deus não nos permite passar, deixando aos
Espíritos sistemáticos e presunçosos
a responsabilidade das teorias prematuras e errôneas,
mais fascinantes do que sérias, e que um dia
cairão ao embate da razão, com tantas
outras oriundas do cérebro humano. Só
disseram os justamente necessário para que
o homem compreenda o seu futuro e assim encorajá-lo
na prática do bem. (Ver a seguir, na segunda
parte do cap. I: Ação dos Espíritos
sobre a matéria).
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