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O Livro dos Espíritos - da criação - Livro primeiro - Cap. III (questões 37 a 42)

Formação dos mundos


O Universo compreende a infinidade de planetas que vemos e dos que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço, assim como os fluidos que o preenchem.

O Universo foi criado, ou existe por toda eternidade como Deus?
"Sem dúvida ele não pode ter sido feito por si mesmo. Se existisse, como Deus desde toda a eternidade, não poderia ser obra de Deus."
A razão nos diz que o Universo não se fez por si mesmo e que, não podendo ser obra do acaso, deve ser obra de Deus.

Como Deus criou o Universo?
"Vou servir-me de uma expressão: por sua vontade. Nada expressa melhor essa vontade todo-poderosa que estas belas palavras da Gênese: 'Deus disse: Faça-se a luz e a luz foi feita'."

Podemos conhecer o modo de formação dos mundos?
"Tudo o que se pode dizer e que todos podem compreender, é que os mundos formam-se pela condensação da matéria disseminada no espaço."

Os cometas seriam, como agora se supõe, um começo de condensação da matéria, mundos em via de formação?
"Isso é exato; absurdo, porém, é acreditar em sua influência. Eu me refiro a essa influência que as pessoas popularmente lhes atribuem; porque todos os corpos celestes influem de algum modo em certos fenômenos físicos."

Um mundo completamente formado pode desaparecer e a matéria que o compunha ser disseminada novamente no espaço?
"Sim, Deus renova os mundos como renova os seres vivos."

Podemos conhecer a duração da formação dos mundos como a Terra, por exemplo?
"Não posso dizer-lhe, porque somente o Criador o sabe, e bem louco seria aquele que pretendesse saber ou conhecer a duração dessas formações desde o seu início."


O Evangelho Segundo o Espiritismo - Mundos de Expiações e de Provas - Cap. III Instruções dos Espíritos

Mundos superiores e inferiores


Resumo do ensinamento dos Espíritos superiores

8. A qualificação de mundos inferiores e de mundos superiores é antes relativa do que absoluta, pois um mundo é inferior ou superior com relação àqueles que estão abaixo ou acima dele, na escala do progresso.
Tomando a Terra por comparação, pode fazer-se uma idéia do estado de um mundo inferior, supondo os seus habitantes no grau evolutivo dos povos selvagens e das nações bárbaras que se encontram ainda em nosso planeta, como restos de seu estado primitivo. Nos mundos mais atrasados, os seres que os habitam são de certa forma rudimentares. Possuem a forma humana, mas sem nenhuma beleza. Nesses, os instintos não estão abrandados por nenhum sentimento de delicadeza ou de benevolência, nem pelas noções do justo ou do injusto. Apenas a força bruta é a lei. Sem indústrias, sem invenções, os habitantes dedicam suas vidas à conquista de alimentos. Entretanto, Deus não abandona nenhuma de suas criaturas. No fundo obscuro dessas inteligências encontra-se, latente, a vaga intuição, de um Ser Supremo, mais ou menos desenvolvida. Esse instinto basta para que uns se tornem superiores aos outros, preparando-se para a eclosão de uma vida mais plena, pois não são seres degradados, mas crianças em crescimento.
Entre esses graus inferiores e os mais elevados, existem inumeráveis escalas, e entre os Espíritos puros, desmaterializados e resplandecentes de glória, mal se reconhece aqueles que animaram os seres primitivos, assim como no homem adulto mal se reconhece o antigo embrião.

9. Nos mundos que atingiram um grau superior, as condições da vida moral e material são diferentes das encontradas na Terra. A forma dos corpos é sempre, como por toda a parte, a humana, entretanto, mais embelezada, aperfeiçoada e, sobretudo, purificada. O corpo nada tem da materialidade terrena, e não é, conseqüentemente, sujeito às necessidades, às doenças, e às deteriorações decorrentes do predomínio da matéria. Os sentidos, mais sutis, têm percepções que a rudeza dos nossos órgãos sufoca. A leveza específica dos corpos torna a locomoção rápida e fácil. Ao invés de se arrastarem penosamente sobre o solo, eles deslizam, por assim dizer, na superfície ou pelo ar, sem outro esforço além da própria vontade, à maneira das representações dos anjos ou como os manes (1) dos antigos nos Campos Elíseos(2). Os homens conservam à vontade os traços de suas existências passadas, e aparecem aos amigos tal qual estes os conheceram, mas iluminados por uma luz divina, transfigurados pelas impressões interiores, que são sempre elevadas. No lugar de rostos pálidos, devastados pelo sofrimento ou pelas paixões, a inteligência e a vida resplandecem, com esse brilho que os pintores traduziram pela auréola dos santos.
A pouca resistência que a matéria oferece a estes Espíritos já bem avançados, facilita o desenvolvimento dos corpos e abrevia ou quase anula o período da infância. A vida, isenta de preocupações e de angústias, é proporcionalmente muito mais longa do que a da Terra. Em princípio, a longevidade é proporcional ao grau de evolução dos mundos. A morte não tem os horrores da decomposição e longe de ser motivo de pavor, ela é considerada uma transformação feliz, pois não existem dúvidas sobre o futuro. Durante a vida, não estando a alma encerrada numa matéria compacta, irradia e goza de uma lucidez que a coloca num estado quase permanente de emancipação, permitindo a livre transmissão do pensamento.
(1) Manes: as almas dos mortos considerados como divindades, entre os romanos. (N. do E.)
(2) Campos Elíseos: morada dos heróis e homens virtuosos, após a morte, na mitologia greco-latina. (N. do E.)


10. Nesses mundos felizes, as relações de povo a povo, sempre amigáveis, nunca são perturbadas pela ambição de dominação nem pelas guerras que lhes são conseqüentes. Não há mestres nem escravos, nem privilegiados pelo nascimento. Somente a superioridade moral e intelectual estabelece a diferença de condições e confere a supremacia. A autoridade é sempre respeitada, porque decorre apenas do mérito e se exerce sempre com justiça. O homem não procura elevar-se acima do homem, mas sobre si mesmo, aperfeiçoando-se. Seu objetivo é chegar ao nível dos Espíritos puros, e esse desejo incessante não é um tormento, mas uma nobre ambição, que o faz estudar com determinação para os igualar. Todos os sentimentos ternos e elevados da natureza humana lá se encontram engrandecidos e purificados. Os ódios, os ciúmes mesquinhos, as baixas cobiças da inveja ali são desconhecidos. Um sentimento de amor e de fraternidade une a todos os homens; os mais fortes ajudam os mais fracos. Suas posses são correspondentes às possibilidades de inteligência de cada um, mas ninguém sofre pela falta do necessário, pois ninguém ali está por expiação. Em uma palavra, o mal não existe.

11. Em vosso mundo, tendes a necessidade do mal para sentir o bem, da noite para admirar a luz, da doença para apreciar a saúde. Lá, esses contrastes não são necessários. A eterna luz, a eterna bondade, a paz eterna da alma proporcionam uma perene alegria, que não é perturbada nem pelas angústias da vida material, nem pelo contato dos maus, que ali não têm acesso. Aí está o que o Espírito humano só dificilmente compreende. Ele foi engenhoso ao pintar os tormentos do inferno, mas nunca representou as alegrias do céu. E isso por que? Porque, sendo inferior, ele apenas conheceu dores e misérias, e não pode entrever as luzes celestes. Ele não pode falar daquilo que não conhece; mas, à medida que ele se eleva e se depura, o seu horizonte se amplia e ele compreende o bem que está diante dele, assim como compreendeu o mal que ficou para trás.

12. Entretanto, esses mundos afortunados não são mundos privilegiados, pois Deus é imparcial com todos os seus filhos. Ele dá a todos os mesmos direitos e as mesmas facilidades para chegarem até lá. Fez que todos partissem do mesmo ponto, e não dota a uns mais do que a outros; os primeiros lugares são acessíveis a todos: cabe-lhes atingi-los o mais rápido possível ou se abandonarem durante séculos e séculos nos baixos níveis da humanidade.

Mundos de expiações e de provas


Santo Agostinho - Paris, 1862

13. O que vos direi destes mundos de expiações que vós já não conheçais, pois basta considerar a Terra que habitais? A superioridade da inteligência, para um grande número de seus habitantes, indica que ela não é mais um mundo primitivo, destinado à encarnação de Espíritos ainda mal saídos das mãos do Criador. As suas qualidades inatas são a prova de que já viveram e que realizaram um certo progresso. Mas os vícios também numerosos aos quais se inclinam, são o indício de uma grande imperfeição moral. É por isso que Deus os colocou num mundo ingrato, para expiarem suas faltas por meio de um trabalho penoso e das misérias da vida, até que se façam merecedores de passar para um mundo mais feliz.

14. Entretanto, nem todos os Espíritos encarnados sobre a Terra se encontram em expiação. As raças que chamais selvagens são Espíritos apenas saídos da infância, e que aí estão, por assim dizer, educando-se e desenvolvendo-se ao contato de Espíritos mais avançados. Vêm, em seguida, as raças semicivilizadas, formadas por esses mesmos Espíritos em evolução. São, podemos dizer, as raças indígenas da Terra, que se desenvolveram pouco a pouco, depois de longos períodos seculares, conseguindo algumas atingir a evolução intelectual dos povos mais esclarecidos. Os Espíritos em expiação aí estão, se podemos assim nos exprimir, como estrangeiros; já viveram em outros mundos, dos quais foram excluídos devido à sua obstinação no mal, que os tornava motivo de perturbação para os bons. Eles foram relegados, por um tempo, entre os Espíritos mais atrasados, tendo por missão fazê-los avançar, pois levaram consigo uma inteligência desenvolvida e o germe dos conhecimentos adquiridos. É por essa razão que os Espíritos punidos se encontram entre as raças mais inteligentes, pois são estas também as que sofrem mais penosamente as misérias da vida, por possuírem mais sensibilidade e serem mais atingidas pelos atritos do que as raças primitivas, nas quais o senso moral é mais obtuso.

15. A Terra se apresenta, assim, como um dos tipos de mundos expiatórios, nos quais as variedades são infinitas, mas que têm como característica comum servirem de local de exílio aos Espíritos rebeldes à lei de Deus. Neles, os Espíritos exilados precisam lutar, ao mesmo tempo, contra a perversidade dos homens e a inclemência da natureza. Trabalho duplamente penoso, que desenvolve ao mesmo tempo as qualidades do coração e as da inteligência. É assim que Deus, em sua bondade, transforma o castigo em proveito e evolução para o Espírito.

Mundos regeneradores


Santo Agostinho - Paris, 1862

16. Entre as estrelas que cintilam na abóbada azulada, quantos mundos, como o vosso, designados pelo Senhor para as provas e as expiações! Mas há, também, entre elas, mundos mais infelizes e melhores, como há mundos de transição, que podemos chamar de regeneradores. Cada turbilhão planetário, girando no espaço em torno de um centro comum, arrasta consigo mundos primitivos, de exílio, de provas, de regeneração e de felicidade. Já ouvistes falar desses mundos onde a alma nascente é colocada, ainda ignorante do bem e do mal, para que possa caminhar para Deus, senhora de si mesma, de posse de seu livre arbítrio. Já ouvistes falar das amplas faculdades de que a alma foi dotada, para praticar o bem. Mas, que pena! Existem as que fracassam ! E Deus, não querendo destruí-las, permite-lhes ir a esses mundos onde, de encarnação em encarnação, elas se depuram, se regeneram, e voltarão dignas da glória a que foram destinadas.

17. Os mundos regeneradores servem de transição entre os mundos de expiação e os mundos felizes. A alma que se arrepende, encontra nesse lugar a paz e o repouso, terminando por se purificar.
Sem dúvida, mesmo nesses mundos, o homem ainda está sujeito às leis que regem a matéria; a Humanidade prova as vossas sensações e os vossos desejos, mas está liberta das paixões desordenadas que vos escravizam. Lá não há mais o orgulho que cala o coração, a inveja que o tortura, o ódio que o asfixia. A palavra amor está escrita em todas as frontes; uma perfeita eqüidade regula as relações sociais. Todos manifestam a Deus e buscam chegar a Ele, seguindo as suas leis.
Entretanto, ainda não existe nesses mundos a perfeita felicidade, mas a aurora da felicidade. O homem ainda é carnal e, por isso mesmo, sujeito às vicissitudes das quais somente estão isentos os seres completamente desmaterializados. Ainda há provas a suportar, mas não se revestem das lancinantes angústias da expiação. Comparados à Terra, esses mundos são mais felizes, e muitos dentre vós gostariam de habitá-los, pois representam a calma após a tempestade, a convalescência após uma doença grave. O homem, menos absorvido pelas coisas materiais, entrevê melhor o futuro do que vós; compreende que são outras as alegrias que o Senhor prometeu àqueles que se tornam dignos, quando a morte novamente ceifar os seus corpos, para lhes dar a verdadeira vida. É então que a alma liberta planará sobre todos os horizontes; não mais os sentidos materiais e grosseiros, mas os sentidos de um perispírito puro e celeste, aspirando às emanações de Deus, através dos perfumes do amor e da caridade, que se expandem de seu seio.

18. Mas, ah! Nesses mundos o homem ainda é falível, e o espírito do mal ainda não perdeu completamente o seu domínio sobre ele. Não avançar é recuar, e se o homem não está deter-minado no caminho do bem, ele pode cair nos mundos de expiação, onde o aguardam novas e mais terríveis provas.
Contemplai, pois, essa abóbada azulada, durante a noite, na hora do repouso e da prece, e entre as inúmeras esferas que brilham sobre as vossas cabeças, procurai quais levam a Deus e pedi para que um mundo regenerador vos abra as suas portas, depois da expiação na Terra.

Progressão dos mundos


Santo Agostinho - Paris, 1862


19. O progresso é uma das leis da natureza. Todos os seres da Criação, animados e inanimados, a ela estão submetidos, pela bondade de Deus, que quer que tudo se engrandeça e prospere. A própria destruição, que parece, para os homens, o fim das coisas, é apenas um meio de levá-las, pela transformação, a um estado mais evoluído, pois tudo morre para renascer, e nada volta para o nada.
Ao mesmo tempo que os seres vivos progridem moralmente, os mundos em que eles habitam progridem materialmente. Quem pudesse seguir um mundo em suas diversas fases, desde o instante em que se aglomeraram os primeiros átomos que serviram para a sua constituição, poderia vê-lo percorrer uma escala incessantemente progressiva, mas através de níveis imperceptíveis a cada geração, e oferecer aos seus habitantes um lugar mais agradável, à medida que eles também avançam no caminho do progresso. Assim caminham, paralelamente, os progressos do homem, o dos animais - seus auxiliares -, o dos vegetais e o das formas de habitação, pois nada fica estacionário na Criação.
Como esta idéia é grande e digna da majestade do Criador! E como, ao contrário, é pequena e indigna de seu poder a idéia que concentra a sua solicitude e a sua providência no imperceptível grão de areia da Terra, e restringe a Humanidade a algumas criaturas que o habitam!
A Terra, seguindo essa lei, esteve material e moralmente num estado inferior ao de hoje, e atingirá, neste duplo aspecto, um grau mais avançado. Ela chegou a um de seus períodos de transformação, e vai passar de mundo de provas e expiações a mundo de regeneração. Então os homens serão felizes, pois a lei de Deus nele reinará.

 



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