|
|
| |
| 
|
Sistemas
(II) - Cap. IV, Questões 43 a 46– L.
M.
43) SISTEMA DO REFLEXO:
Reconhecida a ação inteligente, restava
saber qual seria a fonte dessa inteligência.
Pensou-se que poderia ser a do médium ou dos
assistentes, que se refletiria como a luz ou as ondas
sonoras. Isso era possível somente porque a
experiência poderia dar a última palavra
a respeito. Mas notemos, dede logo, que esse sistema
se afasta completamente das idéias puramente
materialistas: para a inteligência dos assistentes
poder reproduzir-se de maneira indireta, seria necessário
admitir a existência no homem der um princípio
independente do organismo. (1)
(1) Ernesto Bozzano defenderia mais tarde esta
tese em Animismo e Espiritismo, num sentido mais amplo.
Ver esse livro. (N. do T.).
Se o pensamento manifestado fosse sempre o dos assistentes,
a teoria da reflexão estaria confirmada. Mas
o fenômeno, mesmo assim reduzido, não
seria do mais alto interesse? O pensamento a repercutir
num corpo inerte e a se traduzir por movimento e ruído
não seria admirável? Não haveria
nisso o que excitar a curiosidade dos sábios?
Por que, pois, eles desprezaram esse fato, eles que
se esgotam na procura de uma fibra nervosa?
Somente a experiência, dissemos, poderia dar
a última palavra sobre essa teoria, e a experiência
a deu condenado-a, porque ela demonstra a cada instante,
e pelos fatos mais positivos, que o pensamento manifestado
pode ser, não só estranho aos assistentes,
mas quase sempre inteiramente contrário ao
deles; que contradiz todas as idéias preconcebidas
e desfaz todas as previsões. De fato, quando
eu penso branco e me respondem preto, não posso
acreditar que a resposta seja minha. Alguns se apóiam
em casos de identidade entre o pensamento manifestado
e o dos assistentes, mas que é que isso prova,
senão que os assistentes podem pensar como
a inteligência comunicante? Não se pode
exigir que estejam sempre em oposição.
Quando, numa conversação, o interlocutor
emite um pensamento semelhante ao vosso, direis por
isso que ele o tirou de vós? Bastam alguns
exemplos contrários e bem constatados para
provar que essa teoria não pode ser decisiva.
Como, aliás, explicar pelo reflexo do pensamento
a escrita feita por pessoas que não sabem escrever?
As respostas do mais elevado alcance filosófico
obtidas através de pessoas iletradas. E aquelas
dadas a perguntas mentais ou formuladas numa língua
desconhecida do médium? E mil outros fatos
que não podem deixar dúvida quanto à
independência da inteligência manifestante?
A opinião contrária só pode resultar
de uma deficiência de observação.
Se a presença de uma inteligência estranha
é moralmente provada pela natureza das respostas,
materialmente o é pelo fenômeno da escrita
direta, ou seja, da escrita feita espontaneamente,
sem caneta nem lápis, sem contato e apesar
de todas as precauções tomadas para
evitar qualquer ardil. O caráter inteligente
do fenômeno não poderia ser posto em
dúvida; logo, há mais do que uma simples
ação fluídica. Além disso,
a espontaneidade do pensamento manifestado independente
de toda expectativa e de qualquer questão formulada,
não permite que se possa tomá-la como
um reflexo do que pensam os assistentes.
O sistema do reflexo é muito desagradável
em certos casos. Quando, por exemplo, numa reunião
de pessoas sérias ocorre uma comunicação
de revoltante grosseria, atribuí-la a um dos
assistentes seria cometer uma grave indelicadeza,
e é provável que todos se apressassem
em repudiá-la (Ver o Livro dos Espíritos,
parágrafo XVI da Introdução.)
44) SISTEMA DA ALMA COLETIVA:
É uma variante do precedente. Segundo esse
sistema, somente a alma do médium se manifesta,
mas identificando-se com a de muitas outras pessoas
presentes ou ausentes para formar um todo coletivo
que reuniria as aptidões, a inteligência
e os conhecimentos de cada umas delas. Embora a brochura
que expõe essa teoria se intitule A Luz (2)
pareceu-nos de um estilo bastante obscuro. Confessamos
haver compreendido pouco do que vimos e só
a citamos para registrá-la. Trata-se, aliás,
de uma opinião individual como tantas outras
e que fez poucos adeptos. Ema Tirpse é o nome
usado pelo autor para designar o ser coletivo que
representa. Ele toma por epígrafe: não
há nada oculto que não venha a ser revelado.
Essa proposição é evidentemente
falsa, pois há uma infinidade de coisas que
o homem não pode e não deve saber. Bem
presunçoso seria o que pretendesse penetrar
todos os segredos de Deus.
(2) Comunhão. A luz do fenômeno
do Espírito. Mesas falantes, sonâmbulos,
médiuns, milagres. Magnetismo espiritual: poder
da prática na fé. Por Ema Tirpse, uma
alma coletiva escrevendo por intermédio de
uma prancheta. Bruxelas, 1858, edição
Devroye.
45) SISTEMA SONAMBÚLICO:
Este sistema teve mais partidários, mas ainda
agora conta com alguns. Como precedente, admite que
todas as comunicações inteligentes procedem
da alma ou Espírito do médium. Mas para
explicar como o médium pode tratar de assuntos
que estão fora do seu conhecimento, em vez
de considerá-lo dotado de uma alma coletiva,
atribui essa aptidão a uma superexcitação
momentânea de suas faculdades mentais, a uma
espécie de estado sonambúlico ou extático,
que exalta e desenvolve a sua inteligência.
Não se pode negar, em certos casos, influência
dessa causa, mas é suficiente haver presenciado
como opera maioria dos médiuns para compreender
que ela não pode resolver todos os casos, constituindo
pois a exceção e não a regra.
Poderia ser assim, se o médium tivesse sempre
o ar de inspirado ou extático, aparência
que ele poderia, aliás, simular perfeitamente,
se quisesse representar uma comédia. Mas como
crer na inspiração, quando o médium
escreve como uma máquina, sem a menor consciência
do que obtém, sem a menor emoção,
sem se preocupar como o que faz, inteiramente distraído,
rindo e tratando de assuntos diversos?
Concebe-se a excitação das idéias,
mas não se compreende que ela faça escrever
aquele que não sabe escrever, e ainda menos
quando as comunicações são transmitidas
por pancadas ou com a ajuda de uma prancheta ou de
uma cesta. Veremos, no curso desta obra, o que se
deve atribuir à influência das idéias
do médium. Mas os casos em que a inteligência
estranha se revela por sinais incontestáveis
são tão numerosos e evidentes, que não
podem deixar dúvidas a respeito. O erro da
maior parte dos sistemas surgidos na origem do Espiritismo
é tirar conclusões gerais de alguns
fatos isolados. (3)
(3) O sistema da excitação das
idéias é hoje renovado pela hipótese
igualmente falsa do inconsciente excitado, que pseudo
parapsicólogos procuram difundir contra as
manifestações espíritas. Como
se vê, os meios e as armas de combate ao Espiritismo
continuam os mesmos, apenas com algumas adaptações
às novas condições culturais.
Mas, em compensação, as respostas já
estão praticamente dadas nas obras de Kardec.
O espírita que as estuda com atenção
refutará facilmente essas repetições
de velhos sistemas superados. (N.do T.)
46) SISTEMA PESSIMISTA,
DIABÓLICO OU DEMONÍACO: Entramos
aqui em outra ordem de idéias. Constatada a
intervenção de uma inteligência
estranha, tratava-se de saber de que natureza era
essa inteligência. O meio mais fácil
era sem dúvida lhe perguntar,. mas algumas
pessoas não viam nisso uma garantia suficiente
e só quiseram ver em todas as manifestações
uma obra diabólica. Segundo elas, somente o
Diabo ou os Demônios podem comunicar-se. Embora
esse sistema tenha hoje pouca aceitação,
gozou por certo tempo de algum crédito, em
virtude da condição especial daqueles
que procuravam fazê-lo prevalecer. Assinalaremos,
porém, que os partidários do sistema
demoníaco não devem ser considerados
entre os adversários do Espiritismo, antes
pelo contrário. Os seres que se comunicam,
quer sejam demônios quer sejam anjos, são
sempre seres incorpóreos. Ora, admitir a manifestação
dos demônios é sempre admitir a possibilidade
de comunicação com o mundo invisível,
ou pelo menos com uma parte desse mundo.
A crença na comunicação exclusiva
dos demônios, por mais irracional que seja,
não pareceria impossível quando se consideravam
os Espíritos como seres criados fora da Humanidade.
Mas desde que sabemos que os Espíritos são
apenas as almas dos que já viveram, ela perdeu
todo o seu prestígio, e podemos dizer toda
a verossimilhança. Porque a conseqüência
seria que todas essas almas eram demônios, fossem
elas de um pai, de um filho ou de um amigo, e que
nós mesmos, ao morrer, nos tornaríamos
demônios, doutrina pouco lisonjeira e pouco
consoladora para muita gente. Seria muito difícil
convencer uma mãe de que uma criança
querida que ela perdeu, e que após a morte
lhe vem dar provas de sua afeição e
de sua identidade, seja um suposto satanás.
É verdade que entre os Espíritos existem
os que são muito maus e não valem mais
do que os chamados demônios, e isso por uma
razão bem simples: é que existem homens
muito maus e que a morte não os melhora imediatamente.
A questão é saber se só eles
podem comunicar-se. Aos que pensam assim, propomos
as seguintes questões:
1) Há espíritos bons e maus?
2) Deus é mais poderoso do que os maus Espíritos,
ou do que os Demônios, se quiserdes?
3) Afirmar que só os maus se comunicam é
dizer que os bons não podem fazê-lo.
Se assim for, de duas uma: isso acontece pela vontade
ou contra a vontade de Deus. Se for contra a sua vontade,
os maus Espíritos são mais poderosos
que Ele. Se for pela sua vontade, por que razão,
na sua bondade, não permitiria a comunicação
dos bons, para contrabalançar a influência
dos outros?
4) Quais provas podeis dar da impossibilidade de se
comunicarem os bons Espíritos?
5) Quando vos opomos a sabedoria de certas comunicações,
respondeis que o Demônio usa todas as máscaras
para melhor seduzir. Sabemos realmente, que há
Espíritos hipócritas que dão
à sua linguagem um verniz de sabedoria. Mas
admitis que a ignorância possa representar o
verdadeiro saber e uma natureza má substituir
a virtude, sem deixar transparecer a fraude?
6) Se for só o Demônio que se comunica,
e sendo ele o inimigo de Deus e dos Homens, por que
recomenda orar a Deus, submissão à sua
vontade, sofrer sem queixas as atribulações
da vida, não ambicionar honras nem riquezas,
praticar a caridade e todas as máximas do Cristo;
em uma palavra, fazer tudo o que é necessário
para destruir o seu império? Se for o Demônio
quem dá esses conselhos, temos de convir que,
por mais ardiloso seja, se mostra bastante inábil
ao fornecer armas contra ele mesmo. (4)
(4) Esta questão foi tratada em O Livro
dos Espíritos (números 128 e seguintes),
mas recomendamos a respeito, como para tudo que se
refere à parte religiosa, a brochura intitulada:
Carta de um Católico sobre o Espiritismo, do
Dr. Grand, antigo cônsul da França (edição
Ledoyen) e aqui publicamos com o título de
Os Contraditores do Espiritismo do ponto de vista
da Religião, da Ciência e do Materialismo.
(N. de Kardec)
(7) Desde que os Espíritos se comunicam, é
que Deus o permite. Vendo as boas e as más
comunicações, não é mais
lógico pensar que Deus permite umas para nos
provar e outras para nos aconselhar o bem?
(8) Que pensaríeis de um pai que deixasse o
filho à mercê dos exemplos e dos conselhos
perniciosos, e que afastasse dele, proibindo-o de
vê-las, as pessoas que pudessem desviá-lo
do mal? O que um bom pai não faria, devemos
pensar que Deus, a bondade por excelência, estaria
fazendo menos compreensivo que um homem?
(9) A Igreja reconhece como autênticas algumas
manifestações da Virgem e de outros
santos, nas aparições, visões,
comunicações orais etc.; essa crença
não está em contradição
com a doutrina da comunicação exclusiva
dos Demônios?
Acreditamos que algumas pessoas aceitaram de boa
fé essa teoria. Mas acreditamos também
que muitas o fizeram apenas para evitar a preocupação
com essas coisas, por causa das más comunicações
que todos estão sujeitos a receber. Dizendo
que somente o Diabo se manifesta, quiseram assustar,
assim como se faz a uma criança: Não
pegue nisso, que queima. A intenção
pode ser louvável, mas não atingiu o
objetivo, porque a proibição só
serve para excitar a curiosidade e o temor do Diabo
abrange poucas pessoas. Em geral querem vê-lo,
nem que seja apenas para saber como ele é,
e acabam se admirando de não encontrá-lo
tão feio como pensavam.
Não se poderia ainda encontrar outro motivo
para esta teoria das comunicações exclusivas
decorrentes do Diabo? Há pessoas que consideram
errados todos os que não pensam como elas.
Ora, as que pretendem que as comunicações
são do demônio não estariam com
medo de encontrar Espíritos que as contrariem,
muito mais no tocante aos interesses deste mundo que
aos do outro? Não podendo negar o fato, quiseram
apresentá-lo de maneira assustadora. Mas esse
meio não deu mais resultados que os outros,
e onde o medo do ridículo é importante,
o melhor é deixar as coisas correrem.
O muçulmano que ouvisse um espírito
falar contra algumas leis do Alcorão, pensaria
seguramente que era um mau Espírito. O mesmo
aconteceria com um judeu, no tocante a algumas práticas
da Lei de Moisés. Quanto aos católicos,
ouvimos um deles afirmar que o Espírito comunicante
era o Diabo, porque se atrevia a pensar diferente
dele sobre o poder temporal, embora só pregasse
a caridade, a tolerância, o amor ao próximo,
o desinteresse pelas coisas mundanas, de acordo com
as máximas pregadas por Cristo.
Os Espíritos são as almas dos homens,
e como os homens não são perfeitos,
há também Espíritos imperfeitos,
cujo caráter se reflete nas comunicações.
É incontestável que há Espíritos
maus, astuciosos, profundamente hipócritas,
contra os quais devemos nos prevenir. Mas por encontrar
os perversos entre os homens devemos fugir da vida
social? Deus nos deu a razão e o discernimento
para apreciarmos os Espíritos e os Homens.
A melhor maneira de evitar os possíveis inconvenientes
da prática espírita não é
impedi-la, mas esclarecê-la. Um temor imaginário
pode impressionar por um instante e não atinge
a todos, enquanto a realidade claramente demonstrada
é compreensível para todos.
Bibliografia - Livro dos Médiuns
- Editora Lake
|
|
|
|