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Sistemas Cap. IV, Questões 36 a 42 – L. M.


36) Quando os estranhos fenômenos do Espiritismo começaram a se produzir, ou melhor, quando se renovarem nestes últimos tempos, suscitaram, antes de mais nada, a dúvida sobre a sua realidade e mais ainda sobre a sua causa. (¹) Quando foram averiguados por testemunhos irrecusáveis e através de experiências que todos puderam fazer, aconteceu que cada qual os interpretou a seu modo, de acordo com suas idéias pessoais, suas crenças e seus preconceitos. Daí o aparecimento dos numerosos sistemas que uma observação mais atenta deveria reduzir ao seu justo valor.

Os adversários do Espiritismo logo viram, nessas divergências de opinião, um argumento contrário, dizendo que os próprios espíritas não concordavam entre si. Era uma razão bem precária, pois os primeiros passos de todas as ciências em desenvolvimento são necessariamente incertos, até que o tempo permita a reunião e coordenação dos fatos que possam fixar-lhes a orientação. À medida que os fatos se completam e são mais bem observados, as idéias prematuras se desfazem e a unidade de opinião se estabelece, quando não sobre os detalhes, pelo menos sobre os pontos fundamentais. Foi o que aconteceu com o Espiritismo, que não podia escapar a essa lei comum, e que devia mesmo, por sua natureza, prestar-se ainda mais à diversidade de opiniões. Podemos dizer, aliás, que nesse sentido o seu avanço foi mais rápido que o de ciências mais antigas, como a Medicina, por exemplo, que ainda continua a dividir os maiores sábios.

(¹) As mesmas dúvidas suscitadas pelo Espiritismo repetiram-se, um século após o seu advento, e portanto em nosso tempo, como o reinício das pesquisas científicas dos fenômenos paranormais (na verdade fenômenos espíritas) pela Parapsicologia. E o desenvolvimento desta nova ciência renova aos n ossos olhos as mesmas disparidades de opinião que caracterizaram o aparecimento do Espiritismo. (N. do T.)

37) Para seguir a ordem progressiva das idéias, de maneira metódica, convém colocar em primeiro lugar os chamados sistemas negativos dos adversários do Espiritismo. Refutamos essas objeções na introdução e na conclusão de O Livro dos Espíritos, bem como na pequena obra intitulada O que é o Espiritismo. Seria inútil voltar ao assunto e nos limitaremos a lembrar, em duas palavras, os motivos em que eles se apoiam.
Os fenômenos espíritas são de duas espécies: os de efeitos físicos e os de efeitos inteligentes. Não admitindo a existência dos Espíritos, por não admitirem nada além da matéria, compreende-se que eles neguem os efeitos inteligentes. Quanto aos efeitos físicos, eles os comentam à sua maneira e seus argumentos podem ser resumidos nos quatro sistemas seguintes.

38) SISTEMA DO CHARLATANISMO: Muitos dos antagonistas atribuem esses efeitos à esperteza, pela ração de alguns terem sido imitados. Essa suposição transformaria todos os espíritas em mistificados e todos os médiuns em mistificadores, sem consideração pela posição, ou caráter, o saber e a honorabilidade das pessoas. Se ela merecesse resposta, diríamos que alguns fenômenos da Física são também imitados pelos prestidigitadores, o que nada prova contra a verdadeira ciência. Há pessoas, aliás, cujo caráter afasta toda suspeita de fraude, e seria preciso não se ter educação nem urbanidade para atrever-se a dizer-lhes que são cúmplices da charlatanice. Num salão bastante respeitável, um senhor que se dizia muito educado permitiu-se fazer uma observação dessa e a dona da casa lhe disse: “Senhor, desde que não está satisfeito, o dinheiro lhe será devolvido na porta”, e com um gesto lhe indicou o melhor que tinha a fazer.

Devemos concluir disso que nunca houve abusos? Seria necessário admitir que os homens são perfeitos. Abusa-se de tudo, mesmo das coisas mais santas. Por que não se abusaria do Espiritismo? Mas o mau emprego que se pode fazer de uma coisa não deve levar-nos a prejulgá-la. Podemos considerar a boa fé dos outros pelos motivos de suas ações. Onde não há especulação não há razão para o charlatanismo.

39) SISTEMA DA LOUCURA: Alguns, por condescendência, querem afastar a suspeita de fraude e pretendem que os que não enganam são enganados por si mesmos, o que equivale a chamá-los de imbecis. Quando os incrédulos são menos maneirosos, dizem simplesmente que esse trata de loucura, atribuindo-se sem cerimônias o privilégio do bom senso. É esse o grande argumento dos que não têm melhores razões a apresentar. Aliás, essa forma de crítica se tornou ridícula pela própria leviandade e não merece que se perca tempo em refutá-la. Por sinal que os espíritas pouco se importam com ela. Seguem corajosamente o seu caminho, consolando-se ao pensar que têm por companheiros de infortúnio muita gente de mérito incontestável. É necessário convir, com efeito, que essa loucura, se trata de loucura, revela uma estranha característica: a de atingir de preferência a classe mais esclarecida, na qual o Espiritismo conta até o momento com a maioria absoluta de adeptos. Se nesse número se encontram alguns excêntricos, eles não depõem mais contra a Doutrina do que os fanáticos contra a Religião; do que os melomaníacos contra a Música; ou do que os maníacos calculadores contra a Matemática. Todas as idéias têm os seus fanáticos e seria necessário ser-se muito obtuso para confundir o exagero de uma idéia com a própria idéia. Para mais amplas explicações a respeito, enviamos o leito à nossa brochura: O que é o Espiritismo ou a O Livro dos Espíritos, parágrafo XV da Introdução.

40) SISTEMA DA ALUCINAÇÃO: Outra opinião, menos ofensiva porque tem u leve disfarce científico, consiste em atribuir os fenômenos a uma ilusão dos sentidos. Assim, o observador seria de muito boa fé, mas creria ver o que não vê. .Quando vê uma mesa levantar-se e permanecer no ar sem qualquer apoio, a mesa nem se moveu. Ele a vê no espaço por uma ilusão ou por um efeito de refração, como o que nos faz ver um astro ou um objeto na água, deslocado de sua verdadeira posição. A rigor, isso seria possível, mas os que testemunharam esse fenômeno constataram a suspensão passando por baixo da mesa, que seria difícil se ela não houvesse sido elevada. Além disso, ela é elevada tantas vezes que acaba por quebrar-se ao cair. Seria isso também uma ilusão de óptica?

Uma causa fisiológica bem conhecida pode fazer, sem dúvida, que se veja rodar uma cousa que nem se mexeu, ou que nos sintamos rodar quando estamos imóveis. Mas quando várias pessoas que estão ao redor de uma mesa são arrastadas por um movimento tão rápido que é difícil segui-la, e algumas são até mesmo derrubadas, teriam acaso sofrido vertigens, como o ébrio que vê a casa passar-lhe pela frente? (²)

(²) Conta Simone de Beauvoir, em “A Força da Idade”, uma experiência de tiptologia com Jean Paul Sartre, em que ela fez a mesa bater à vontade, iludindo a todos, inclusive o próprio filósofo. Como se vê por essa brincadeira entre filósofos ateus e céticos, a posição da inteligência francesa ainda não mudou a respeito do assunto. É pena que em vez de brincar não tenham feito uma experiência séria. (N. do T.)

41) SISTEMA DO MÚSCULO FALANTE: Se assim fosse no que toca à visão, não seria diferente para o ouvido. Mas quando os golpes são ouvidos por toda uma assembléia, não se pode razoavelmente atribuí-los à ilusão. Afastamos, bem entendido, qualquer idéia de fraude, considerando uma observação atenta em que se tenha constatado que não havia nenhuma causa fortuita ou material.

É verdade que um sábio médico deu ao caso uma explicação decisiva, segundo pensava: “ A causa, disse ele, está nas contrações voluntárias o involuntárias do tendão muscular do pequeno perônio”. (3) E entra nas mais completas minúcias anatômicas para demonstrar o mecanismo dessa produção de estalos, que pode imitar o tambor e mesmo executar árias ritmadas. Chega assim, à conclusão de que os que ouvem os golpes numa mesa são vítimas de uma mistificação ou de uma ilusão. O fato nada apresenta de novo. Infelizmente para o autor dessa pretensa descoberta , sua teoria não pode explicar todos os casos. Digamos primeiramente que os dotados da estranha faculdade de fazer estalar à vontade o músculo de pequeno perônio, ou outro qualquer, e tocar árias musicais por esse meio, são criaturas excepcionais, enquanto a de fazer estalar as mesas é muito comum, e os que a possuem só muito raramente podem possuir aquela. Em estalos musculares de uma pessoa imóvel e distanciada da mesa produzir nestas vibrações sensíveis ao tato; como esses estalos podem repercutir, à vontade dos assistentes, em lugares diversos da mesa, em outros móveis, nas paredes, no forro, etc., e como, enfim, a ação desse músculo pode estender-se a uma mesa que não se toca e fazê-la mover-se sozinha. Esta explicação, aliás, se realmente explicasse alguma coisa, só poderia infirmar o fenômeno dos golpes, não podendo referir-se aos demais modos de comunicação. Concluímos, pois, que o seu autor julgou sem ter visto, ou sem ter visto tudo de maneira suficiente. É sempre lamentável que os homens de ciência se apressem a dar, sobre o que não conhecem, explicações que os fatos podem desmentir. O seu próprio saber deveria torná-los tanto mais ponderados em seus julgamentos, quanto mais esse saber lhes amplia os limites do desconhecido.

(3) Médico Jobert, de Lamballe. Para sermos justos devemos dizer que essa descoberta se deve ao Sr. Schiff. O Sr. Jobert apenas desenvolveu as sus consequências perante a Academia de Medicina para dar o golpe decisivo nos Espíritos batedores. Todos os detalhes podem ser encontrados na Revista Espírita de junho de 1859. (Nota de Kardec)

42) SISTEMA DAS CAUSAS FÍSICAS: Saímos aqui dos sistemas de negação absoluta. Averiguada a realidade dos fenômenos, o primeiro pensamento que naturalmente ocorreu ao espírito dos que viram foi o de atribuir os movimentos ao magnetismo, à eletricidade ou à ação de um fluido qualquer, em uma palavra, a uma causa exclusivamente física, material. Essa opinião nada tinha de irracional e prevaleceria se o fenômeno se limitasse aos efeitos puramente mecânicos. Uma circunstância parece mesmo corroborá-la: era, em alguns casos, o aumento da potência na razão do número de pessoas presentes, pois cada uma delas podia ser considerada como elemento de uma pilha elétrica humana. O que caracteriza uma teoria verdadeira, já o dissemos, é a possibilidade de explicar todos os fatos. Se um único fato a contraditar, é porque ela é falsa, incompleta ou demasiada arbitrária. Foi o que não tardou a acontecer no caso. Os movimentos e os golpes revelaram inteligência, pois obedeciam a uma vontade e respondiam ao pensamento. Deviam, pois, ter uma causa inteligente. E desde que o efeito cessava de ser apenas físico, a causa, por isso mesmo, devia ser outra. Assim o sistema de ação exclusiva de um agente material foi abandonado e só se renova entre os que julgam a priori sem nada terem visto. O ponto capital, portanto, é a constatação da ação inteligente, e é por ele que se pode convencer quem quiser se dar ao trabalho da observação.

 



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