| Livro dos Espíritos
(Livro Segundo - Cap. II - questões 23 a 28)
O que é o Espírito?
"O princípio inteligente do Universo."
Qual é a natureza íntima do Espírito?
"O Espírito não é fácil
de analisar em sua linguagem. Para os homens não
é nada, porque o Espírito não
é algo palpável; mas para nós,
é alguma coisa. Saibam-no bem, nenhuma coisa
é o nada, e o nada não existe."
Espírito é sinônimo de inteligência?
"A inteligência é um atributo essencial
do Espírito; mas um e outro confundem-se em
um princípio comum, de sorte que, para os homens,
passa a ser a mesma coisa."
O Espírito é independente da matéria
ou é apenas uma propriedade dela, como as cores
são propriedades da luz e o som, uma propriedade
do ar?
"Tanto um como o outro são distintos;
mas é necessária a união do Espírito
e da matéria para dar a inteligência
a esta."
Essa união é igualmente necessária
para a manifestação do Espírito?
(Entendemos, aqui por Espírito, o princípio
da inteligência, abstração feita
às individualidades designadas por esse nome.)
"Ela é necessária para os encarnados,
porque não são organizados para perceber
o Espírito sem a matéria; seus sentidos
não foram feitos para isso."
Pode-se conceber o Espírito sem a matéria
e a matéria sem o Espírito?
"Pode-se, sem dúvida, pelo pensamento."
Existiriam, assim, dois elementos gerais no Universo:
a matéria e o Espírito?
"Sim, e acima de ambos, Deus, o Criador, pai
de todas as coisas. Essas três coisas são
o princípio de tudo o que existe, a trindade
universal. Mas ao elemento material, falta acrescentar
o fluido universal que representa um papel intermediário
entre o Espírito e a matéria propriamente
dita, densa demais para que o Espírito possa
exercer ação sobre ela. Embora sob um
certo ponto de vista, se pudesse considerá-lo
como um elemento material, ele se distingue pelas
propriedades especiais que possui. Se não fosse
matéria positivamente, não haveria razão
para que o Espírito não o fosse também.
Está colocado entre o Espírito e a matéria;
é fluido, como a matéria é matéria;
suscetível, por suas inumeráveis combinações
com esta, e sob a ação do Espírito,
de produzir a variedade infinita de coisas das quais
os homens conhecem apenas uma diminuta parte. Esse
fluido universal (2)
? , ou primitivo, ou elementar, sendo o agente que
o Espírito emprega, é o princípio
sem o qual a matéria estaria em estado perpétuo
de dispersão e não adquiriria jamais
as propriedades que a gravidade lhe dá."
(2) Fluido Universal - o original
francês utiliza a palavra Fluido Universal e
não Princípio Universal. De acordo com
o Oxford English Dictionary, não era incomum
aos físicos da metade do século XIX
utilizarem-se da palavra fluido com o sentido de tênue,
sutil, imponderável, para todas as substâncias
permeáveis, cuja existência foi admitida
por conta dos fenômenos de calor, magnetismo
e eletricidade. Em nossos dias, entretanto, fluido
é mais comumente definido como uma substância
líquida ou gasosa que corre ou se expande à
maneira de um líquido ou gás, tomando
a forma do recipiente em que está colocado.
A escolha dos espíritos por determinadas terminologias,
prendeu-se aos jargões científicos da
época, mas a linguagem humana é dinâmica
e vocábulos que hoje são correntes,
podem facilmente se tornar obsoletos em poucas décadas.
Assim, estender-se sobre a antiga terminologia (fluido),
seria uma grave injustiça à idéia
dos Espíritos, que é nova e corrente
hoje como há 50 anos atrás, quando foi
apresentada pela primeira vez. Interessante será
apresentar a noção de um elemento fundamental,
que transcende as estruturas conhecidas da matéria,
o que leva-nos à lei de gravitação
universal de Newton (Sir Isaac Newton, 1642-1727).
De acordo com essa lei, cada partícula da matéria
atrai qualquer outra partícula, estando tudo
inter-relacionado. O que os Espíritos superiores
parecem indicar é que a força gravitacional
não pode resultar das partículas da
matéria por ela mesma; ao invés, seria
uma transformação ou teria a sua origem
no fluido cósmico universal.
Podemos também traçar paralelos importantes
da noção de fluido cósmico universal
dos Espíritos com o trabalho de James C.Maxwell
(1831-1879) e Albert Einstein (1879-1955). Na metade
da década de 1860, a teoria do eletromagnetismo
de Maxwell trouxe o magnetismo, a eletricidade e a
luz à uma integrada estrutura matemática
e apresentou aos físicos o conceito de campos,
que acreditamos ser modificações de
uma estrutura sutil, o éter. O fato de que
o éter dissimula a detecção em
experimentos laboratoriais, motivou Einstein a propor
a Teoria da Relatividade em 1905, que, conquanto abstraindo
a noção de éter, calculou o fenômeno
eletromagnético em termos de campos isolados.
Na visão de Einstein, campos são antimatéria
ao natural. Uma questão importante permanece,
entretanto: é possível haver campos
ocorrendo dentro do nada? A descoberta deste meio
sutil, no qual os campos desenvolvem a própria
existência, e no qual os Espíritos superiores
denominaram fluido cósmico universal, é
em nossos dias, o objetivo central dos físicos
teóricos.
Mais recentemente, o mecanismo do quântum tem
oferecido uma visão alternativa para a teoria
da Relatividade. Investigando os mais íntimos
segredos da matéria, os físicos quânticos
encontraram uma imensa quantidade de partículas
bem menores dentro do átomo. Eles descobriram,
também, que cada partícula tem seu próprio
campo de matéria. Desta forma, os campos das
chamadas partículas elementares da matéria
podem ser considerados como campos fundamentais e
juntamente com os campos eletromagnéticos e
gravitacionais, os campos fundamentais da Natureza.
Nesse sentido, as formas vivas constituídas
de átomos, células, organismos e corpos
seriam um complexo sistema de campos hierárquicos.
Entretanto, o conhecimento de que essas partículas
não são matéria nem vibração,
ou que talvez eles sejam ambas as coisas, traz o desafio
de identificação das forças que
mantém a atividade dentro dos campos.
A visão irrealizada de Einstein foi uma teoria
de campos unificados que circundam os campos conhecidos
pelos físicos: a matéria gravitacional,
eletromagnética, e o quântum. Como o
fluido cósmico universal, esta superforça
teria a propriedade de trazer o universo ao nascimento,
dando-lhe luz, energia, substância, e estrutura.
É juntamente com este background de conhecimentos
que devemos entender o conceito de fluido cósmico
universal. Os Espíritos superiores apresentaram
esta noção de forma que pudesse ir ao
encontro do conhecimento científico e a linguagem
da época (1850), mas de forma que também
permitisse ser compreendido no futuro (nos dias atuais).
Certamente, deve ter sido seu desejo que cada geração
criasse suas próprias pontes de acesso à
interpretação dos conceitos e, desta
forma, fazendo parte da busca da compreensão
da vida. Fonte: KARDEC, Allan The Spirits
Book, Allan Kardec Educational Society, Philadelphia,
USA, 1996. (N. do E.)
Esse fluido seria o que designamos
pelo nome de eletricidade?
"Dissemos que ele é suscetível
de inumeráveis combinações. Isso
a que chamam fluido elétrico, fluido magnético,
são modificações do fluido universal,
que é, propriamente falando, uma matéria
mais perfeita, mais sutil e que pode ser vista como
independente."
Por que o próprio Espírito é
alguma coisa, não seria mais exato e menos
sujeito a confusões designar esses dois elementos
gerais pelas palavras: matéria inerte e matéria
inteligente?
"As palavras nos importam pouco. A linguagem
deve ser formulada de maneira a se tornar compreensível.
As dissensões humanas surgem porque sempre
há desentendimentos sobre as palavras, pois
a linguagem humana é incompleta para as coisas
que não lhes ferem os sentidos."
Um fato patente domina todas as hipóteses;
vemos que a matéria não é inteligente;
vemos um princípio inteligente independente
da matéria. A origem e a conexão de
ambas as coisas nos são desconhecidas. Que
tenham ou não uma origem comum, com os pontos
de contato necessários; que a inteligência
tenha sua existência própria ou que seja
uma propriedade, um efeito; que seja mesmo, segundo
a opinião de alguns, uma emanação
da Divindade - é o que ignoramos. Elas nos
parecem distintas, porque as admitimos como formando
dois princípios constitutivos do Universo.
Vemos, acima de tudo isso, uma inteligência
que domina todas as outras, que as governa, que se
distingue pelos atributos essenciais: é a essa
inteligência suprema que chamamos Deus.
O Evangelho Segundo o Espiritismo (
Meu reino não é deste Mundo - Cap. II)
A vida futura - A realeza
de Jesus - O ponto de vista - Instruções
dos Espíritos: Uma realeza terrena.
1. Voltando Pilatos ao pretório e tendo
chamado Jesus, lhe disse: Tu és o rei dos judeus?
- Jesus respondeu-lhe : Meu reino não é
deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, os meus
ministros haveriam de combater para impedir-me de
cair nas mãos dos judeus; mas por ora, o meu
reino não é daqui. Pilatos, então,
lhe disse: Tu és, então, rei? - Jesus
respondeu: Tu o dizes, que eu sou rei. Eu não
nasci nem vim a este mundo senão para testemunhar
a verdade; todo aquele que é da verdade ouve
a minha voz. (João, XVIII:33-37
A vida futura
2. Por estas palavras, Jesus se refere claramente
à vida futura, que ele apresenta, em todas
as circunstâncias, como a meta a que deve chegar
a Humanidade, devendo ser o objeto das principais
preocupações do homem sobre a Terra.
Todas as suas máximas se voltam a esse grande
princípio. Sem a vida futura, na verdade, a
maior parte de seus preceitos de moral não
teriam nenhuma razão de ser. É por isso
que aqueles que não acreditam na vida futura,
crendo que Ele apenas falava da vida presente, não
os compreendem ou os acham pueris.
Este dogma pode ser considerado, então, como
o ponto central do ensinamento do Cristo. É
por isso que ele está colocado entre os primeiros,
no início desta obra, pois deve ser o objetivo
de todos os homens. Somente Ele pode justificar as
anomalias da vida terrestre e harmonizar-se com a
justiça de Deus.
3. Os judeus tinham idéias muito imprecisas
no tocante à vida futura. Acreditavam nos anjos,
que consideravam como os seres privilegiados da criação,
mas não sabiam que os homens, um dia, pudessem
tornar-se anjos e participar da felicidade angélica.
Segundo pensavam, a observação das leis
de Deus era recompensada pelos bens da Terra, pela
supremacia de sua nação no mundo, pelas
vitórias sobre os seus inimigos. As calamidades
públicas e as derrotas eram o castigo pela
sua desobediência. Moisés não
poderia dizer mais a um povo de pastores, ignorante,
que precisava ser tocado antes de tudo pelas coisas
deste mundo. Mais tarde, Jesus veio lhes revelar que
há um outro mundo, no qual a justiça
de Deus segue seu curso. É esse mundo que ele
promete àqueles que observam os mandamentos
de Deus e no qual os bons encontrarão sua recompensa.
Esse mundo é o seu reino onde se encontra em
toda a sua glória, e para o qual voltará
ao deixar a Terra.
Entretanto, apropriando o seu ensinamento ao estado
dos homens de sua época, Jesus evitou de lhes
dar o esclarecimento completo, que os deslumbraria
sem instruir, pois eles não o teriam compreendido.
Ele se limitou a colocar, de alguma forma, a vida
futura como um princípio, como uma lei natural,
à qual ninguém pode escapar. Todo cristão
crê forçosamente na vida futura, mas
a idéia que se faz dela é vaga, incompleta,
e por isso mesmo falsa em muitos pontos. Para um grande
número, é apenas uma crença,
sem nenhuma certeza decisiva. Daí as dúvidas
e até mesmo a incredulidade.
O Espiritismo veio completar, nesse ponto, como em
muitos outros, o ensinamento do Cristo, quando os
homens se mostraram maduros para compreender a verdade.
Com o Espiritismo, a vida futura não é
mais um simples artigo de fé, ou uma hipótese.
É uma realidade material, demonstrada pelos
fatos. Porque são as testemunhas oculares que
vêm descrevê-la em todas as suas fases
e ocorrências, de tal maneira, que não
apenas a dúvida já não é
mais possível, como a inteligência mais
comum pode fazer uma idéia dos seus mais variados
aspectos, da mesma forma como se representa um país
do qual se lê uma descrição detalhada.
Ora, esta descrição da vida futura é
de tal forma circunstanciada, são tão
racionais as condições da existência
feliz ou infeliz daqueles que nela se encontram, que
se diz apesar de tudo que não pode ser diferente,
e que lá está realmente bem representada
a justiça de Deus.
|