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O
Livro dos Espíritos - cap. IV item VI - Transmigração
progressiva (quest. 189 a 196)
Desde o princípio de sua
formação, o Espírito desfruta
da plenitude de suas faculdades?
"Não, porque o Espírito, como o
homem, tem também a sua infância. Em
sua origem, os Espíritos têm apenas uma
existência rudimentar, instintiva, possuindo
apenas a consciência de si mesmos e de seus
atos. A inteligência se lhe desenvolve lentamente."
Qual é o estado da alma em sua primeira
encarnação?
"O mesmo da infância na vida corpórea.
Sua inteligência apenas desabrocha: ela ensaia
para a vida."
As almas de nossos selvagens são almas no
estado de infância?
"Infância relativa, pois são almas
já desenvolvidas dotadas de paixões."
As paixões denotam, portanto, desenvolvimento?
"Desenvolvimento, sim; não, porém,
de perfeição. São sinais de atividade
e de consciência própria; enquanto que
na alma primitiva, a inteligência e a vida são
rudimentares."
A vida do Espírito, em seu conjunto, segue
as mesmas fases que vemos na vida corporal. Passa
gradualmente do estado de embrião ao de infância,
para chegar, por uma sucessão de períodos,
ao estado adulto, que é o da perfeição,
com a diferença de que nesta não há
o declínio nem a decrepitude da vida corporal.
Sua vida, que teve um começo, não terá
fim; que lhe é necessário, sob o nosso
ponto de vista, um longo período para passar
da infância espírita a um desenvolvimento
e o seu progresso realizar-se, não somente
em um planeta mas através de diversos mundos.
A vida do Espírito constitui-se, assim, em
uma série de existências corporais, sendo
cada qual uma oportunidade de progredir, como cada
existência corporal se compõe de uma
série de dias, cada um dos quais o homem adquire
maior experiência e instrução.
Mas, da mesma maneira que na vida humana há
dias improdutivos, na do Espírito há
existências corporais sem proveito, porque ele
não soube conduzi-las.
Mediante uma conduta perfeita é possível
ao Espírito vencer em uma única existência
corpórea, todos os graus evolutivos e tornar-se
puro, sem passar pelos níveis intermediários?
"Não, pois o que o homem julga perfeito
está distante da perfeição. Há
qualidades que lhe são desconhecidas e nem
pode compreender. Poderá tornar-se tão
perfeito quanto lhe permita a sua natureza terrena;
esta, entretanto, não é a perfeição
absoluta. Do mesmo modo que uma criança, por
mais precoce que seja, deve passar pela juventude
antes de chegar à idade adulta; assim como
o doente passa pela convalescença antes de
recuperar a saúde. Além disso, o Espírito
deve igualmente avançar em conhecimento e moralidade.
Se ele progrediu apenas num sentido, é necessário
que igualmente progrida num outro, para chegar ao
topo da escala. Quanto mais o homem avança
em sua vida presente, menos as provas ser-lhe-ão
longas e penosas."
O homem pode garantir desde esta vida uma existência
futura menos cheia de amarguras?
"Sim, sem dúvida, pode abreviar o caminho
e reduzir-lhe as dificuldades. Só o negligente
fica sempre no mesmo ponto."
Em suas novas existências, um homem pode
descer abaixo do ponto que anteriormente alcançara?
"Como posição social, sim. Como
Espírito, não."
A alma de um homem de bem pode animar o corpo
de um celerado, noutra encarnação?
"Não, pois ela não pode retroceder."
A alma de um homem perverso pode transformar-se
na de um homem de bem?
"Sim, desde que se tenha arrependido. Ser-lhe-á,
então, uma recompensa."
A marcha dos Espíritos é progressiva,
jamais retrograda. Elevam-se gradualmente na hierarquia
e não descem do plano alcançado. Em
suas diferentes existências corporais, podem
chegar a um nível inferior como homens, mas
não como Espíritos. Assim, a alma de
um poderoso na Terra pode, mais tarde, animar um humilde
artesão, e vice-versa, porque as posições
entre os homens estão, freqüentemente,
na razão inversa da elevação
dos sentimentos morais. Herodes era rei, e Jesus,
carpinteiro.
A possibilidade de poder melhorar-se numa outra
existência , não tende a levar certas
pessoas a perseverar no mau caminho, com a idéia
de que sempre poderão corrigir-se mais tarde?
"Os que assim pensam, em nada acreditam, e a
idéia de um castigo eterno não os coibiria
mais, porque sua razão a repele e essa idéia
conduz à incredulidade. Se apenas se houvessem
empregado meios racionais para orientar os homens,
não existiriam tantos céticos. Um Espírito
imperfeito pode, com efeito, pensar da forma questionada
acima, durante a vida corpórea; mas, uma vez
liberto da matéria, pensará de outra
maneira, porque logo perceberá que calculou
mal e é então que trará um sentimento
diferente, em uma nova existência. É
assim que se efetiva o progresso e eis porque temos,
na Terra, homens mais avançados que outros.
Alguns, já têm uma experiência
pelas quais os outros ainda não passaram, mas
que adquirirão pouco a pouco. Depende deles
avançar na senda do progresso, ou retardá-lo
indefinidamente."
O homem que se encontra numa posição
má, deseja mudá-la o mais rapidamente
possível. Aquele que se persuadiu que as atribulações
desta vida são conseqüências de
suas próprias imperfeições, procurará
assegurar-se uma nova existência menos penosa.
Este pensamento o desviará mais do caminho
do mal, do que o do fogo eterno, no qual não
acredita.
Desde que os Espíritos não se aperfeiçoam
senão através do sofrimento e das tribulações
da existência corporal, conclui-se que a vida
material é uma espécie de crivo ou de
cadinho, pelo qual devem passar os seres do mundo
espírita, para chegarem à perfeição?
"Sim, é precisamente isso. Eles melhoram
através das provas, evitando o mal e praticando
o bem. Mas só ao fim de muitas encarnações
ou depurações sucessivas é que
atingem, num tempo mais ou menos longo e, segundo
os seus esforços, o alvo que colimaram."
Evangelho Segundo o Espiritismo
- cap. XVI - Não se pode servir a Deus e a
Mamon - Salvação dos ricos
1. Nenhum servo pode servir a dois mestres,
pois ou odiará um e amará o outro, ou
se ligará a um e desprezará o outro.
Não podeis servir ao mesmo tempo a Deus e a
Mamon. (Lucas, XVI:13)
2. Então, um jovem se aproximou dele
e disse: - Bom Mestre, o que devo fazer, para adquirir
a vida eterna? - Jesus lhe respondeu: - Por que me
chamas de bom? Somente Deus é bom. Porém,
se queres entrar na vida, guarda esses mandamentos.
- Quais? Jesus lhe disse: Não matarás;
não cometerás adultério; não
roubarás; não dirás falso testemunho.
Honrarás a teu pai e a tua mãe, e amarás
o teu próximo como a ti mesmo. O jovem lhe
respondeu: - Eu guardei todos esses mandamentos desde
a minha infância, o que me falta ainda? Jesus
lhe disse: se quiseres ser perfeito, vai, vende o
que tens e dá-o aos pobres, e terás
um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me.
Ouvindo essas palavras, o jovem se foi, triste, porque
ele tinha muitos bens. E Jesus disse aos seus discípulos:
- Eu vos digo, em verdade, que é bem difícil
um rico entrar no Reino dos Céus. Eu vos digo
mais uma vez: - É mais fácil um camelo1?
passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar
no Reino dos Céus. (Mateus, XIX:16-24; Lucas,
XII:18-25; Marcos X: 17-25)
Utilidade providencial da fortuna
7. Se a riqueza fosse um obstáculo absoluto
à salvação daqueles que a possuem
- como se poderia inferir de algumas palavras de Jesus,
interpretadas segundo a letra e não segundo
o espírito. Deus, que as distribui, teria colocado
nas mãos de alguns um instrumento fatal de
perdição, pensamento que revolta à
razão. A riqueza é, sem dúvida,
uma prova muito arriscada, mais perigosa do que a
miséria, devido aos seus atrativos, às
tentações e à fascinação
que exerce. É o supremo excitante do orgulho,
do egoísmo e da vida sensual. É o laço
mais poderoso que liga o homem à Terra e desvia
os seus pensamentos do céu. Produz uma tal
vertigem, que se vê, muitas vezes, aquele que
passa da miséria à fortuna esquecer
rapidamente a sua antiga posição, bem
como dos seus companheiros, daqueles que o ajudaram,
tornando-se insensível, egoísta e fútil.
Mas tornar a vida mais difícil, não
é o mesmo que torná-la inviável
e pode se transformar a riqueza em meio de salvação
nas mãos daquele que dela souber tirar proveito,
como alguns venenos que podem recuperar a saúde,
se forem empregados à propósito e com
discernimento.
Quando Jesus disse ao jovem que o interrogava sobre
os meios para ganhar a vida eterna: "Desfaze-te
de todos os teus bens, e segue-me", não
pretendia estabelecer como princípio absoluto
que cada um devesse despojar-se do que possui, e que
a salvação só se consegue a esse
preço, mas mostrar que o apego aos bens terrenos
é um obstáculo à salvação.
Esse jovem, na verdade, acreditava estar correto,
já que havia observado certos mandamentos e,
entretanto, recuava diante da idéia de abandonar
os seus bens; seu desejo de obter a vida eterna não
ia até esse sacrifício.
A proposta que Jesus lhe fazia era uma prova decisiva,
para esclarecer o fundo do seu pensamento. Ele poderia,
sem dúvida, ser um padrão de homem honesto,
segundo o mundo, não fazer mal a ninguém,
não maldizer o seu próximo, não
ser fútil nem orgulhoso, honrar ao pai e à
mãe. Mas ele não tinha a verdadeira
caridade, pois a sua virtude não chegava até
à abnegação. Foi isso o que Jesus
quis demonstrar. Era a aplicação do
princípio: fora da caridade não há
salvação.
A conseqüência dessas palavras, tomadas
num sentido rigoroso, seria a abolição
da fortuna, como prejudicial à felicidade futura
e como fonte de incontáveis males sobre a Terra.
Seria, além disso, a condenação
do trabalho que a pode proporcionar. Conseqüência
absurda, que reconduziria o homem à vida selvagem
e, exatamente por isso, estaria em contradição
com a lei de progresso, que é uma lei de Deus.
Se a riqueza é a fonte de muitos males, se
excita tanto às más paixões,
se provoca tantos crimes, não é a ela
que devemos ater-nos, mas ao homem que dela abusa,
assim como faz com todos os dons de Deus. Pelo abuso,
ele torna pernicioso o que lhe poderia ser-lhe mais
útil. É a conseqüência do
estado de inferioridade do mundo terreno. Se a riqueza
produzisse apenas o mal, Deus não a teria colocado
na Terra. Cabe ao homem saber transformá-la
em fonte do bem. Se ela não é uma causa
imediata do progresso moral, é, sem contestações,
um poderoso elemento de progresso intelectual.
Com certeza, o homem tem por missão trabalhar
para o desenvolvimento material do globo. Ele deve
desbravá-lo, saneá-lo, dispô-lo
para receber, um dia, toda a população
que a sua extensão comporta. É preciso
aumentar a produção, para alimentar
essa população. Se a produção
de uma região for insuficiente, é preciso
buscá-la noutra. Por isso mesmo, as relações
de povo a povo torna-se uma necessidade, e para facilitá-las,
é indispensável destruir os obstáculos
materiais que os separam, tornar mais rápidas
as comunicações.
Para os trabalhos que são obras dos séculos,
o homem teve de extrair materiais das próprias
entranhas da terra. Buscou na Ciência os meios
de executá-los mais segura e rapidamente. Mas,
para fazê-lo, necessitava de recursos. A necessidade
o fez produzir as riquezas, assim como esta o fez
descobrir a Ciência. A atividade necessária
para estes mesmos trabalhos lhe aumenta e desenvolve
a inteligência, a qual ele concentra, primeiramente,
sobre a satisfação das necessidades
materiais, e que o ajudará, mais tarde, a compreender
as grandes verdades morais.
Sem a riqueza, o primeiro meio de execução,
não haveria grandes trabalhos, nem atividades,
nem estímulos, nem pesquisas.
Para maior compreensão do assunto leia o capítulo
inteiro.
O Livro dos Médiuns
- cap. XIV - quest. 165 a 177
3. Médiuns audientes
165. Estes ouvem a voz dos Espíritos. É,
como dissemos ao falar da pneumatofonia, algumas vezes
uma voz interior, que se faz ouvir no foro íntimo;
doutras vezes, é uma voz exterior, clara e
distinta, qual a de uma pessoa viva. Os médiuns
audientes podem, assim, travar conversação
com os Espíritos. Quando têm o hábito
de se comunicar com determinados Espíritos,
eles os reconhecem imediatamente pela natureza da
voz. Quem não seja dotado desta faculdade pode,
igualmente, comunicar com um Espírito, se tiver,
a auxiliá-lo, um médium audiente, que
desempenhe a função de intérprete.
Esta faculdade é muito agradável, quando
o médium só ouve Espíritos bons,
ou unicamente aqueles por quem chama. Assim, entretanto,
já não é, quando um Espírito
mau se lhe agarra, fazendo-lhe ouvir a cada instante
as coisas mais desagradáveis e não raro
as mais inconvenientes. Cumpre-lhe, então,
procurar livrar-se desses Espíritos, pelos
meios que indicaremos no capítulo da Obsessão.
4. Médiuns falantes
166. Os médiuns audientes, que apenas transmitem
o que ouvem, não são, a bem dizer, médiuns
falantes. Estes últimos, as mais das vezes,
nada ouvem. Neles, o Espírito atua sobre os
órgãos da palavra, como atua sobre a
mão dos médiuns escreventes. Querendo
comunicar-se, o Espírito se serve do órgão
que se lhe depara mais flexível no médium.
A um, toma da mão; a outro, da palavra; a um
terceiro, do ouvido. O médium falante geralmente
se exprime sem ter consciência do que diz e
muitas vezes diz coisas completamente estranhas às
suas idéias habituais, aos seus conhecimentos
e, até, fora do alcance de sua inteligência.
Embora se ache perfeitamente acordado e em estado
normal, raramente guarda lembrança do que diz.
Em suma, nele, a palavra é um instrumento de
que se serve o Espírito, com o qual uma terceira
pessoa pode comunicar-se, como pode com o auxilio
de um médium audiente.
Nem sempre, porém, é tão completa
a passividade do médium falante. Alguns há
que têm a intuição do que dizem,
no momento mesmo em que pronunciam as palavras.
Voltaremos a ocupar-nos com esta espécie de
médiuns, quando tratarmos dos médiuns
intuitivos.
167. Os médiuns videntes são dotados
da faculdade de ver os Espíritos. Alguns gozam
dessa faculdade em estado normal, quando perfeitamente
acordados, e conservam lembrança precisa do
que viram. Outros só a possuem em estado sonambúlico,
ou próximo do sonambulismo. Raro é que
esta faculdade se mostre permanente; quase sempre
é efeito de uma crise passageira. Na categoria
dos médiuns videntes se podem incluir todas
as pessoas dotadas de dupla vista. A possibilidade
de ver em sonho os Espíritos resulta, sem contestação,
de uma espécie de mediunidade, mas não
constitui, propriamente falando, o que se chama médium
vidente. Explicamos esse fenômeno em o capítulo
VI - Das manifestações visuais.
O médium vidente julga ver com os olhos, como
os que são dotados de dupla vista; mas, na
realidade, é a alma quem vê e por isso
é que eles tanto vêem com os olhos fechados,
como com os olhos abertos; donde se conclui que um
cego pode ver os Espíritos, do mesmo modo que
qualquer outro que tem perfeita a vista. Sobre este
último ponto caberia fazer-se interessante
estudo, o de saber se a faculdade de que tratamos
é mais freqüente nos cegos. Espíritos
que na Terra foram cegos nos disseram que, quando
vivos, tinham, pela alma, a percepção
de certos objetos e que não se encontravam
imersos em negra escuridão.
168. Cumpre distinguir as aparições
acidentais e espontâneas da faculdade propriamente
dita de ver os Espíritos. As primeiras são
freqüentes, sobretudo no momento da morte das
pessoas que aquele que vê amou ou conheceu e
que o vêm prevenir de que já não
são deste mundo. Há inúmeros
exemplos de fatos deste gênero, sem falar das
visões durante o sono. Doutras vezes, são,
do mesmo modo, parentes, ou amigos que, conquanto
mortos há mais ou menos tempo, aparecem, ou
para avisar de um perigo, ou para dar um conselho,
ou, ainda, para pedir um serviço. O serviço
que o Espírito pode solicitar é, em
geral, a execução de uma coisa que lhe
não foi possível fazer em vida, ou o
auxílio das preces. Estas aparições
constituem fatos isolados, que apresentam sempre um
caráter individual e pessoal, e não
efeito de uma faculdade propriamente dita. A faculdade
consiste na possibilidade, senão permanente,
pelo menos muito freqüente de ver qualquer Espírito
que se apresente, ainda que seja absolutamente estranho
ao vidente. A posse desta faculdade é o que
constitui, propriamente falando, o médium vidente.
Entre esses médiuns, alguns há que só
vêem os Espíritos evocados e cuja descrição
podem fazer com exatidão minuciosa. Descrevem-lhes,
com as menores particularidades, os gestos, a expressão
da fisionomia, os traços do semblante, as vestes
e, até, os sentimentos de que parecem animados.
Outros há em quem a faculdade da vidência
é ainda mais ampla: vêem toda a população
espírita ambiente, a se mover em todos os sentidos,
cuidando, poder-se-ia dizer, de seus afazeres.
169. Assistimos uma noite à representação
da ópera Oberon, em companhia de um médium
vidente muito bom. Havia na sala grande número
de lugares vazios, muitos dos quais, no entanto, estavam
ocupados por Espíritos, que pareciam interessar-se
pelo espetáculo. Alguns se colocavam junto
de certos espectadores, como que a lhes escutar a
conversação. Cena diversa se desenrolava
no palco: por detrás dos atores muitos Espíritos,
de humor jovial, se divertiam em arremedá-los,
imitando-lhes os gestos de modo grotesco; outros,
mais sérios, pareciam inspirar os cantores
e fazer esforços por lhes dar energia. Um deles
se conservava sempre junto de uma das principais cantoras.
Julgando-o animado de intenções um tanto
levianas e tendo-o evocado após a terminação
do ato, ele acudiu ao nosso chamado e nos reprochou,
com severidade, o temerário juízo: "Não
sou o que julgas, disse; sou o seu gula e seu Espírito
protetor; sou encarregado de dirigi-la." Depois
de alguns minutos de uma palestra muito séria,
deixou--nos, dizendo: "Adeus; ela está
em seu camarim; é preciso que vá vigiá-la."
Em seguida, evocamos o Espírito Weber, autor
da ópera, e lhe perguntamos o que pensava da
execução da sua obra. "Não
de todo má; porém, frouxa; os atores
cantam, eis tudo. Não há inspiração.
Espera, acrescentou, vou tentar dar-lhes um pouco
do fogo sagrado." Foi visto, daí a nada,
no palco, pairando acima dos atores. Partindo dele,
um como eflúvio se derramava sobre os intérpretes.
Houve, então, nestes, visível recrudescência
de energia.
170. Outro fato que prova a influência que os
Espíritos exercem sobre os homens, à
revelia destes: Assistíamos, como nessa noite,
a uma representação teatral, com outro
médium vidente. Travando conversação
com um Espírito espectador, disse-nos ele:
"Vês aquelas duas damas sós, naquele
camarote da primeira ordem? Pois bem, estou esforçando-me
por fazer que deixem a sala." Dizendo isso, o
médium o viu ir colocar-se no camarote em questão
e falar às duas. De súbito, estas, que
se mostravam muito atentas ao espetáculo, se
entreolharam, parecendo consultar-se mutuamente.
Depois, vão-se e não mais voltam. O
Espírito nos fez então um gesto cômico,
querendo significar que cumprira o que dissera. Não
É tornamos a ver, para pedir-lhe explicações
mais amplas. assim que muitas vezes fomos testemunha
do papel que os Espíritos desempenham entre
os vivos. Observamo-los em diversos lugares de reunião,
em bailes, concertos, sermões, funerais, casamentos,
etc., e por toda parte os encontramos atiçando
paixões más, soprando discórdias,
provocando rixas e rejubilando-se com suas proezas.
Outros, ao contrário, combatiam essas influências
perniciosas, porém, raramente eram atendidos.
171. A faculdade de ver os Espíritos pode,
sem dúvida, desenvolver-se, mas é uma
das de que convém esperar o desenvolvimento
natural, sem o provocar, em não se querendo
ser joguete da própria imaginação.
Quando o gérmen de uma faculdade existe, ela
se manifesta de si mesma. Em princípio, devemos
contentar-nos com as que Deus nos outorgou, sem procurarmos
o impossível, por isso que, pretendendo ter
muito, corremos o risco de perder o que possuímos.
Quando dissemos serem freqüentes os casos de
aparições espontâneas (n. 107),
não quisemos dizer que são muito comuns.
Quanto aos médiuns videntes, propriamenteditos,
ainda são mais raros e há muito que
desconfiar dos que se inculcam possuidoresdessa faculdade.
E prudente não se lhes dar crédito,
senão diante de provas positivas.
Não aludimos sequer aos que se dão à
ilusão ridícula de ver os Espíritos
glóbulos, quedescrevemos no n. 108; falamos
apenas dos que dizem ver os Espíritos de modo
racional. E fora de dúvida que algumas pessoas
podem enganar-se de boa-fé, porém, outras
podem também simular esta faculdade por amor-próprio,
ou por interesse. Neste caso, é preciso, muito
especialmente, levarem conta o caráter, a moralidade
e a sinceridade habituais; todavia, nas particularidades,
sobretudo, é que se encontram meios de mais
segura verificação, porquanto algumas
há que não podem deixar suspeita, como,
por exemplo, a exatidão no retratar Espíritos
que o médium jamais conheceu quando encamados.
Pertence a esta categoria o fato seguinte: Uma senhora,
viúva, cujo marido se comunica freqüentemente
com ela, estava certa vez em companhia de um médium
vidente, que não a conhecia, como não
lhe conhecia a família. Disse-lhe o médium,
em dado momento: - Vejo um Espírito perto da
senhora. - Ah! disse esta por sua vez: E com certeza
meu marido, que quase nunca me deixa. - Não,
respondeu o médium, é uma mulher de
certa idade; está penteada de modo singular;
traz um bandó branco sobre a fronte.
Por essa particularidade e outros detalhes descritos,
a senhora reconheceu, sem haver possibilidade de engano,
sua avó, em quem naquele instante absolutamente
não pensava. Se o médium houvesse querido
simular a faculdade, fácil lhe fora acompanhar
o pensamento da dama. Entretanto, em vez do marido,
com quem ela se achava preocupada, ele vê uma
mulher, com uma particularidade no penteado, da qual
coisa alguma lhe podia dar idéia. Este fato
prova também que a vidência, no médium,
não era reflexo de qualquer pensamento estranho.
(Veja-se o n. 102.)
6. Médiuns sonambúlicos
172. Pode considerar-se o sonambulismo uma variedade
da faculdade mediúnica, ou, melhor, são
duas ordens de fenômenos que freqüentemente
se acham reunidos. O sonâmbulo age sob a influência
do seu próprio Espírito; é sua
alma que, nos momentos de emancipação,
vê, ouve e percebe, fora dos limites dos sentidos.
O que ele externa tira-o de si mesmo; suas idéias
são, em geral, mais justas do que no estado
normal, seus conhecimentos mais dilatados, porque
tem livre a alma. Numa palavra, ele vive antecipadamente
a vida dos Espíritos. O médium, ao contrário,
é instrumento de uma inteligência estranha;
é passivo e o que diz não vem de si
Em resumo, o sonâmbulo exprime o seu próprio
pensamento, enquanto que o médium exprime o
de outrem. Mas, o Espírito que se comunica
com um médium comum também o pode fazer
com um sonâmbulo; dá-se mesmo que, muitas
vezes, o estado de emancipação da alma
facilita essa comunicação. Muitos sonâmbulos
vêem perfeitamente os Espíritos e os
descrevem com tanta precisão, como os médiuns
videntes. Podem confabular com eles e transmitir-nos
seus pensamentos. O que dizem, fora do âmbito
de seus conhecimentos pessoais, lhes é com
freqüência sugerido por outros Espíritos.
Aqui está um exemplo notável, em que
a dupla ação do Espírito do sonâmbulo
e de outro Espírito se revela e de modo inequívoco.
173. Um de nossos amigos tinha como sonâmbulo
um rapaz de 14 a 15 anos, de inteligência muito
vulgar e instrução extremamente escassa.
Entretanto, no estado de sonambulismo, deu provas
de lucidez extraordinária e de grande perspicácia.
Excedia, sobretudo, no tratamento das enfermidades
e operou grande número de curas consideradas
impossíveis. Certo dia, dando consulta a um
doente, descreveu a enfermidade com absoluta exatidão.
Não basta, disseram-lhe, agora é preciso
que indiques o remédio. Não posso, respondeu,
meu anjo doutor não está aqui. Quem
é esse anjo doutor de quem falas? - O que dita
os remédios. - Não és tu, então,
que vês os remédios? - Oh! não;
estou a dizer que é o meu anjo doutor quem
mos dita.
Assim, nesse sonâmbulo, a ação
de ver o mal era do seu próprio Espírito
que, para isso, não precisava de assistência
alguma; a indicação, porém, dos
remédios lhe era dada por outro. Não
estando presente esse outro, ele nada podia dizer.
Quando só, era apenas sonâmbulo; assistido
por aquele a quem chamava seu anjo doutor, era sonâmbulo-médium.
174. A lucidez sonambúlica é uma faculdade
que se radica no organismo e que independe, em absoluto,
da elevação, do adiantamento e mesmo
do estado moral do indivíduo. Pode, pois, um
sonâmbulo ser muito lúcido e ao mesmo
tempo incapaz de resolver certas questões,
desde que seu Espírito seja pouco adiantado.
O que fala por si próprio pode, portanto, dizer
coisas boas ou más, exatas ou falsas, demonstrar
mais ou menos delicadeza e escrúpulo nos processos
de que use, conforme o grau de elevação,
ou de inferioridade do seu próprio Espírito.
A assistência então de outro Espírito
pode suprir-lhe as deficiências. Mas, um sonâmbulo,
tanto como os médiuns, pode ser assistido por
um Espírito mentiroso, leviano, ou mesmo mau.
AI, sobretudo, é que as qualidades morais exercem
grande influência, para atraírem os bons
Espíritos. (Veja-se: O Livro dos Espíritos,
"Sonambulismo", n. 425, e, aqui, adiante,
o capítulo sobre a "Influência moral
do médium".)
175. Unicamente para não deixar de mencioná-la,
falaremos aqui desta espécie de médiuns,
porquanto o assunto exigiria desenvolvimento excessivo
para os limites em que precisamos ater-nos. Sabemos,
ao demais, que um de nossos amigos, médico,
se propõe a tratá-lo em obra especial
sobre a medicina intuitiva. Diremos apenas que este
gênero de mediunidade consiste, principalmente,
no dom que possuem certas pessoas de curar pelo simples
toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso
de qualquer medicação. Dir-se-á,
sem dúvida, que isso mais não é
do que magnetismo.
Evidentemente, o fluido magnético desempenha
aí importante papel; porém, quem examina
cuidadosamente o fenômeno sem dificuldade reconhece
que há mais alguma coisa. A magnetização
ordinária é um verdadeiro tratamento
seguido, regular e metódico; no caso que apreciamos,
as coisas se passam de modo inteiramente diverso.
Todos os magnetizadores são mais ou menos aptos
a curar, desde que saibam conduzir-se
convenientemente, ao passo que nos médiuns
curadores a faculdade é espontânea e
alguns até a possuem sem jamais terem ouvido
falar de magnetismo. A intervenção de
uma potência oculta, que é o que constitui
a mediunidade, se faz manifesta, em certas circunstâncias,
sobretudo se considerarmos que a maioria das pessoas
que podem, com razão, ser qualificadas de médiuns
curadores recorre à prece, que é uma
verdadeira evocação. (Veja-se atrás
o n. 131.)
176. Eis aqui as respostas que nos deram os Espíritos
às perguntas que lhes dirigimos sobre este
assunto:
1ª a Podem considerar-se as pessoas dotadas de
força magnética como formando uma variedade
de médiuns?
"Não há que duvidar."
2ª Entretanto, o médium é um intermediário
entre os Espíritos e o homem; ora, o magnetizador,
haurindo em si mesmo a força de que se utiliza,
não parece que seja intermediário de
nenhuma potência estranha.
"É um erro; a força magnética
reside, sem dúvida, no homem, mas é
aumentada pela ação dos Espíritos
que ele chama em seu auxilio. Se magnetizas com o
propósito de curar, por exemplo, e invocas
um bom Espírito que se interessa por ti e pelo
teu doente, ele aumenta a tua força e a tua
vontade, dirige o teu fluido e lhe dá as qualidades
necessárias."
3ª Há, entretanto, bons magnetizadores
que não crêem nos Espíritos?
"Pensas então que os Espíritos
só atuam nos que crêem neles? Os que
magnetizam para o bem são auxiliados por bons
Espíritos. Todo homem que nutre o desejo do
bem os chama, sem dar por isso, do mesmo modo que,
pelo desejo do mal e pelas más intenções,
chama os maus."
4ª Agiria com maior eficácia aquele que,
tendo a força magnética, acreditasse
na intervenção dos Espíritos?
"Faria coisas que consideraríeis milagre."
5ª Há pessoas que verdadeiramente possuem
o dom de curar pelo simples contacto, sem o emprego
dos passes magnéticos?
"Certamente; não tens disso múltiplos
exemplos?"
6ª Nesse caso, há também ação
magnética, ou apenas influência dos Espíritos?
"Uma e outra coisa. Essas pessoas são
verdadeiros médiuns, pois que atuam sob a influência
dos Espíritos; isso, porém, não
quer dizer que sejam quais médiuns curadores,
conforme o entendes."
7ª Pode transmitir-se esse poder?
"O poder, não; mas o conhecimento de que
necessita, para exercê-lo, quem o possua. Não
falta quem não suspeite sequer de que tem esse
poder, se não acreditar que lhe foi transmitido."
8ª Podem obter-se curas unicamente por meio da
prece?
"Sim, desde que Deus o permita; pode dar-se,
no entanto, que o bem do doente esteja em sofrer por
mais tempo e então julgais que a vossa prece
não foi ouvida."
9ª Haverá para isso algumas fórmulas
de prece mais eficazes do que outras?
"Somente a superstição pode emprestar
virtudes quaisquer a certas palavras e somente Espíritos
ignorantes, ou mentirosos podem alimentar semelhantes
idéias, prescrevendo fórmulas. Pode,
entretanto, acontecer que, em se tratando de pessoas
pouco esclarecidas e incapazes de compreender as coisas
puramente espirituais, o uso de determinada fórmula
contribua para lhes infundir confiança. Neste
caso, porém, não é na fórmula
que está a eficácia, mas na fé,
que aumenta por efeito da idéia ligada ao uso
da fórmula."
8. Médiuns pneumatógrafos
177. Dá-se este nome aos médiuns que
têm aptidão para obter a escrita direta,
o que não é possível a todos
os médiuns escreventes. Esta faculdade, até
agora, se mostra muito rara. Desenvolve-se, provavelmente,
pelo exercício; mas, como dissemos, sua utilidade
prática se limita a uma comprovação
patente da intervenção de uma força
oculta nas manifestações. Só
a experiência é capaz de dar a ver a
qualquer pessoa se a possui Pode-se, portanto, experimentar,
como também se pode inquirir a respeito um
Espírito protetor, pelos outros meios de comunicação.
Conforme seja maior ou menor o poder do médium,
obtêm-se simples traços, sinais, letras,
palavras, frases e mesmo páginas inteiras.
Basta de ordinário colocar uma folha de papel
dobrada num lugar qualquer, ou indicado pelo Espírito,
durante dez minutos, ou um quarto de hora, às
vezes mais. A prece e o recolhimento são condições
essenciais; é por isso que se pode considerar
impossível a obtenção de coisa
alguma, numa reunião de pessoas pouco sérias,
ou não animadas de sentimentos de simpatia
e benevolência. (Veja-se a teoria da escrita
direta, capítulo VIII, Laboratório do
mundo invisível, n. 127 e seguintes, e capítulo
XII, Pneumatografia.)
Trataremos de modo especial dos médiuns escreventes
nos capítulos que se seguem.
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