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Dos Elementos Gerais do Universo Conhecimento do princípio das coisas (O Livro dos Espíritos - primeiro livro - cap. II - questões de 17 a 20)

É possível ao homem conhecer o princípio das coisas?

"Não, Deus não permite que tudo seja revelado ao homem neste mundo."

O homem penetrará um dia o mistério das coisas que lhe estão ocultas?

"O véu se ergue para ele, na medida em que se depura; mas para compreender certas coisas, faltam-lhe faculdades que, todavia, ainda não possui."

O homem não pode, pelas investigações da Ciência, penetrar alguns dos segredos da Natureza?

"A pesquisa científica é um meio de avançar em todos os campos, mas não pode ultrapassar os limites fixados por Deus."

Quanto mais é permitido ao homem penetrar nesses mistérios, maior deve ser a sua admiração pelo poder e sabedoria do Criador; mas, seja por orgulho, seja por fraqueza, sua própria inteligência o torna, freqüentemente, joguete da ilusão; ele acumula teorias sobre teorias e cada dia lhe indica quantos erros tomou como verdades e quantas verdades repele como erros. São outras tantas decepções para o seu orgulho.

Além das investigações da Ciência, é dado ao homem receber as comunicações de uma ordem mais elevada sobre aquilo que escapa ao testemunho de seus sentidos?

"Sim, se Deus assim julgar útil, pode revelar o que a Ciência não pode apreender."

É por essas comunicações que o homem passa a ter, com certos limites, o conhecimento de seu passado e de seu futuro.

O Evangelho Segundo o Espiritismo Introdução - Objetivo desta obra

Pode-se dividir os assuntos contidos nos Evangelhos em cinco partes: os atos comuns da vida do Cristo, os milagres, as predições, as palavras que serviram de consolidação aos dogmas da Igreja e o ensinamento moral.

Se as quatro primeiras partes são objeto de controvérsias, a última permanece inatacável. Diante desse código divino, submete-se a própria incredulidade. É o terreno em que todos os cultos se encontram, a bandeira sob a qual todos podem abrigar-se, sejam quais forem as suas crenças, pois ela nunca se fez objeto de disputas religiosas, sempre e por toda a parte levantadas pelos dogmas. Se o discutissem, as seitas teriam encontrado nele a sua própria condenação, pois a maioria delas está mais ligada à parte mística do que à parte moral, que exige a renovação de si mesmo. Para os homens, em particular, é uma regra de conduta que abrange todas as circunstâncias da vida particular ou pública, o princípio de todas as relações sociais fundadas sobre a mais rigorosa justiça. É, enfim, e acima de tudo, o caminho infalível da felicidade que virá. É uma ponta do véu erguido sobre a vida futura. Este é o tema exclusivo desta obra.

Todo o mundo admira a moral evangélica. Todos proclamam a sua sublimidade e a sua necessidade; mas muitos o fazem confiando naquilo que ouviram, ou apoiados em algumas máximas que se tornaram proverbiais. Mas poucos a conhecem a fundo, menos ainda a compreendem e sabem deduzir-lhes as conseqüências. A razão disso está, em grande parte, nas dificuldades que a leitura do Evangelho apresenta, incompreensível para a maioria. A forma alegórica e o misticismo intencional da linguagem fazem com que a maioria o leia por desencargo de consciência e por obrigação, como lêem as orações sem as compreenderem, ou seja, sem delas tirar proveito. Os preceitos de moral, disseminados no texto, misturados às narrativas, passam desapercebidos. Torna-se impossível, assim, compreendê-los como um todo e fazê-los objeto de leitura e de meditação separadamente.

É bem verdade que foram escritos tratados de moral evangélica, mas o arranjo em estilo literário moderno lhe tira a espontaneidade primitiva, que lhes proporciona, ao mesmo tempo, encanto e autenticidade. Ocorre o mesmo com as máximas soltas, reduzidas à sua mais simples expressão proverbial; não são mais do que aforismos que perdem uma parte do seu valor e de seu interesse, pela falta de complementos e das circunstâncias em que foram transmitidas.

Para evitar tais inconvenientes, reunimos nesta obra os trechos que podem constituir, por assim dizer, um código de moral universal sem distinção de culto. Nas citações, conservamos tudo o que era útil ao desenvolvimento do pensamento, suprimindo apenas o que era estranho ao assunto. Além disso, respeitamos, escrupulosamente, a tradução original de Sacy, bem como a divisão por versículos. Mas, ao invés de nos atermos a uma ordem cronológica sem real utilidade neste caso, as máximas foram agrupadas e classificadas metodicamente segundo a sua natureza, de maneira que elas se deduzam, o máximo possível, umas das outras. A ordem de numeração dos capítulos e dos versículos permite recorrer à consulta, caso seja necessário.

Foi somente um trabalho material, que por si só teve somente uma utilidade secundária. O essencial era colocá-lo ao alcance de todos pela explicação das passagens obscuras e o desenvolvimento de todas as suas conseqüências, em vista da aplicação nas diferentes circunstâncias da vida. Foi o que tentamos fazer, com a ajuda dos bons Espíritos que nos assistem.

Muitas passagens do Evangelho, da Bíblia e de outros autores sagrados, em geral, são de difícil compreensão; muitas até parecem absurdas, devido à falta de uma chave para se entender o verdadeiro sentido. Esta chave está inteira-mente no Espiritismo, como já puderam convencer-se aqueles que o estudaram seriamente, e como também será ainda melhor reconhecido mais tarde.

O Espiritismo se encontra por toda a parte, na Antigüidade e em todas as épocas da Humanidade. Em tudo encontramos os seus traços: nas escrituras, nas crenças e nos monumentos. É por isto que, ao abrir novos horizontes para o futuro, lança uma luz tão esclarecedora sobre os mistérios do passado.

Como complemento de cada preceito, acrescentamos algumas instruções escolhidas entre as que foram ditadas pelos Espíritos em diversos países e por intermédio de diferentes médiuns. Se estas instruções tivessem surgido de uma única fonte, poderiam ter sofrido uma influência pessoal ou do meio, enquanto que a diversidade das origens prova que os Espíritos dão os seus ensinamentos por toda parte e que ninguém é privilegiado nessa questão.

Esta obra é para uso de todos. Qualquer um pode dela extrair os meios de adequar a sua conduta à moral do Cristo. Os espíritas nela encontrarão, além disso, as aplicações que lhes digam respeito mais particularmente. Graças às comunicações estabelecidas, a partir de agora, de maneira permanente entre os homens e o mundo invisível, a lei evangélica, ensinada à todas as nações pelos próprios Espíritos, não será mais letra morta, pois cada qual a compreenderá e será incessantemente solicitado a colocá-la em prática, pelos conselhos de seus guias espirituais. As instruções dos Espíritos são, verdadeiramente, as vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho.

II - A autoridade da Doutrina Espírita Controle universal do ensinamento dos Espíritos

Se a Doutrina Espírita fosse uma concepção puramente humana, ela teria como garantia somente as luzes daquele que a tivesse concebido. Ora, ninguém aqui na Terra poderia ter a pretensão de possuir para si a verdade absoluta. Se os Espíritos que a revelaram exclusivamente houvessem se manifestado a um só homem, nada lhe garantiria a origem, pois seria necessário crer na palavra daquele que dissesse ter recebido o seu ensina-mento. Admitindo-se absoluta sinceridade de sua parte, poderia no máximo convencer as pessoas de seu relacionamento e poderia ter seguidores, mas jamais conseguiria reunir a todos.

Deus quis que a nova revelação chegasse aos homens por um meio mais rápido e mais autêntico. Eis porque encarregou os Espíritos de levá-la de um polo a outro, manifestando-se por toda a parte, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de ouvir a sua palavra. Um homem pode ser enganado e pode enganar-se a si mesmo, mas tal não ocorre quando milhões vêem e ouvem a mesma coisa. É uma garantia para cada um e para todos. Além disso, pode fazer-se desaparecer um homem, mas não se faz desaparecerem multidões; podem-se queimar livros, mas não se podem queimar Espíritos. Ora, queimem-se todos os livros, e a fonte da doutrina não será menos inesgotável, pois ela não se encontra na Terra, pois surgiu de toda a parte, e todos podem dessedentar-se nessa fonte. Se faltarem homens que a propaguem, haverá sempre os Espíritos, que atingem a todos e aos quais ninguém pode atingir.

São os próprios Espíritos, na verdade, que fazem a propaganda com a ajuda de inumeráveis médiuns, que eles despertam por toda a parte. Se houvesse apenas um intérprete, por mais favorecido que fosse, o Espiritismo seria apenas conhecido. Esse intérprete, qualquer quer fosse a sua categoria, teria sido objeto de desconfiança de muitos; nenhuma nação o aceitaria, enquanto os Espíritos, comunicando-se em todos os lugares, a todos os povos, todas as seitas e a todos os grupos, são aceitos por todos. O Espiritismo não tem nacionalidade, independe de todos os cultos particulares, não é imposto por nenhuma classe social, pois todos podem receber as instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo. Era necessário que assim fosse, para que ele pudesse conclamar todos os homens à fraternidade, pois se não se colocasse sobre um terreno neutro, teria mantido as dissensões, ao invés de apaziguá-las.

Na universalidade dos ensinamentos dos Espíritos, está a força do Espiritismo e também a causa de sua tão rápida propagação. A voz de um só homem, mesmo com o auxílio da imprensa, teria levado séculos para chegar aos ouvidos de todos. Por isso, milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente, em todos os pontos da Terra, para proclamarem os mesmos princípios e transmiti-los aos mais ignorantes e aos mais sábios, a fim de que ninguém seja deserdado. É uma vantagem da qual não desfrutou nenhuma das doutrinas aparecidas até hoje. Se, então, o Espiritismo é uma verdade, ele não teme a má vontade dos homens, nem as revoluções morais, nem as transformações físicas do globo, pois nenhuma dessas coisas pode atingir os Espíritos.

Mas esta não é a única vantagem que resulta dessa posição excepcional. O Espiritismo nela encontra uma poderosa garantia contra os cismas que poderiam ser suscitados, seja pela ambição de alguns, seja pelas contradições de alguns Espíritos. Essas contradições são certamente um obstáculo, mas carregam em si mesmas o remédio, ao lado do mal.

Sabe-se que os Espíritos, pela diferença que há em seus conhecimentos, estão longe de estar individualmente de posse de toda a verdade; que não é dado a todos o poder de penetrar certos mistérios; que o seu saber é proporcional à sua evolução; que os Espíritos comuns não sabem mais do que os homens; que há, entre eles, como entre os homens, os presunçosos e os pseudo-sábios, que acreditam saber o que não sabem; os sistemáticos, que to-mam suas próprias idéias como verdadeiras, e, enfim, os Espíritos de ordem mais elevada, que são completamente desmaterializados, os únicos despojados das idéias e dos preconceitos terrenos. Mas também sabemos que os Espíritos enganadores não têm escrúpulos para se ocultarem sob nomes falsos, a fim de fazerem com que suas utopias sejam aceitas. Disto resulta que, para tudo o que se encontra fora do ensinamento exclusivamente moral, as revelações que cada um possa obter, terão um caráter individual, sem garantia de autenticidade e devem ser consideradas como opiniões pessoais deste ou daquele Espírito, sendo imprudência aceitá-las e divulgá-las levianamente como verdades absolutas.

O primeiro controle é, sem dúvida, o da razão, ao qual é necessário submeter, sem exceção, tudo o que vem dos Espíritos. Toda teoria contrária ao bom senso, com uma lógica rigorosa, e com os dados positivos que possuímos, por mais respeitável que seja o nome que assine, deve ser rejeitada. Mas esse controle é incompleto em muitos casos, por insuficiência de conhecimentos de algumas pessoas, e da tendência de muitos, de tomarem seu próprio julgamento por único árbitro da verdade. Em caso semelhante, o que fazem os homens que não confiam absolutamente em si mesmos? Levam em consideração a opinião da maioria, que lhes serve de guia. Assim deve ser acerca do ensinamento dos Espíritos, que nos fornecem por si mesmos os meios de controle.

A concordância nos ensinamentos dos Espíritos é, então, o seu melhor controle, mas é ainda necessário que ela aconteça em certas condições. A menos segura de todas é quando um médium interroga por si mesmo numerosos Espíritos, sobre um ponto duvidoso. É evidente que, se ele estiver sob o domínio de uma obsessão, ou se relaciona com um Espírito mistificador, este Espírito pode dizer-lhe a mesma coisa sob nomes diferentes. Não há também nenhuma garantia suficiente na concordância que se possa obter pelos médiuns de um mesmo centro, pois eles podem sofrer a mesma influência.

A única garantia segura do ensino dos Espíritos está na concordância que existe entre as revelações feitas espontaneamente, através de um grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em diferentes lugares.

Entenda-se que não se trata aqui de comunicações relativas a interesses secundários, mas das que se relacionam com os princípios da Doutrina.



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