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O Livro dos Espíritos - cap. III, questões 154 a 156

Separação entre a alma e o corpo

A separação entre a alma e corpo é dolorosa?
"Não. O corpo muitas vezes sofre mais durante a vida que no momento da morte; neste, a alma nada sente. Os sofrimentos que por vezes se provam no momento da morte são, ao mesmo tempo, um prazer para o Espírito, que vê chegar o final de seu exílio."
Na morte natural, que acontece pelo esgotamento da vitalidade dos órgãos devido à idade, o homem deixa a vida sem o perceber; é uma lâmpada que se apaga por falta de energia.
Como se opera a separação entre a alma e corpo?

"Desligando-se os laços que a retém, ela se desprende."
A separação opera-se instantaneamente e por uma brusca transição? Há uma linha demarcatória entre a vida e a morte?
"Não, a alma se desprende gradualmente e não escapa como um pássaro cativo que, subitamente, se liberta. Os dois estados se tocam e se confundem, de forma que o Espírito se desprende gradualmente de seus laços, soltando-se, não rompendo-se."

Durante a vida, o Espírito liga-se ao corpo pelo seu envoltório semimaterial ou perispírito. A morte é somente a destruição do corpo e não a desse envoltório, que dele se separa quando cessa a vida orgânica. A observação prova que, no instante da morte, o desprendimento do Espírito não se completa subitamente; antes, opera-se gradualmente e com lentidão variável, segundo os indivíduos. Para alguns, é muito rápido e podemos dizer que o momento da morte é também o da libertação. Mas em outros, sobretudo naqueles cuja vida tenha sido toda material e sensual, o desprendimento é muito mais demorado e perdura por vários dias, semanas e mesmo meses, o que não quer dizer que haja, no corpo, alguma vitalidade, nem a possibilidade de um retorno à vida, mas uma simples afinidade entre o corpo e o Espírito, afinidade que está sempre em razão da preponderância que, durante a vida, o Espírito deu à matéria. É racional admitir que, com efeito, quanto mais o Espírito está identificado com a matéria, mais sofrerá para dela separar-se. Por outro lado, a atividade intelectual e moral, e a elevação dos pensamentos, operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida corporal e, quando chega a morte, é quase instantânea.
Este é o resultado dos estudos feitos sobre todos os indivíduos observados no momento da morte. Essas observações provam, novamente, que a afinidade que em certos indivíduos, persiste entre a alma e o corpo é, às vezes muito penosa, porque o Espírito pode provar o horror da decomposição. Este caso é excepcional e particular a certos gêneros de morte, apresentando-se em alguns suicídios.
A separação definitiva da alma e do corpo pode ser verificada antes da cessação completa da vida orgânica?
"Na agonia, por vezes, a alma já deixou o corpo, que tem apenas a vida orgânica. O homem não tem mais consciência de si mesmo e não obstante resta-lhe ainda, um sopro de vida. O corpo é uma máquina que o coração faz mover; ele se mantém enquanto o coração fizer circular o sangue nas veias e para tal não tem necessidade da alma."


O Evangelho Segundo o Espiritismo - cap. XIII
O óbolo da viúva

5. E, estando Jesus assentado à frente de um gazofilácio (1)? , observava de que maneira o povo nele jogava o dinheiro, e como os ricos lá colocavam muito. Vindo, porém, uma pobre viúva, lá colocou apenas duas pequenas moedas no valor de poucos centavos. Então, tendo Jesus chamado os seus discípulos, disse-lhes: Eu vos digo, em verdade, que essa pobre viúva deu mais do que todos os outros que colocaram dinheiro no gazofilácio, pois todos deram de sua abundância, e ela deu de sua indigência, talvez tudo o que tinha, todo o seu sustento. (Marcos, XII:41-44; Lucas, XXI:1-4)
6. Muitas pessoas reclamam de não poder fazer todo o bem que gostariam, por falta de recursos financeiros, e quando desejam a fortuna, dizem, é para fazer dela um bom uso. A intenção é louvável, sem dúvida, e talvez muito sincera em alguns casos, mas o seria da parte de todos, assim completamente desinteressados? Não há quem, desejando beneficiar aos outros, se sentirão bem de começar a fazer por si mesmos, concedendo-se algumas satisfações a mais, um pouco do supérfluo que lhe falta, dando o restante aos pobres? Essa segunda intenção, dissimulada talvez, mas que encontrariam no fundo de seus corações, se o sondassem, anula o mérito da intenção, pois a verdadeira caridade pensa nos outros antes que em si mesmo. O sublime da caridade, nesse caso, seria buscar cada qual no seu próprio trabalho, pelo emprego de suas forças, de sua inteligência, de seu talento, os recursos que lhe faltam para realizar suas intenções generosas. Este seria o sacrifício mais agradável ao Senhor. Infelizmente, a maioria sonha com meios mais fáceis de enriquecer, rapidamente e sem sacrifícios, correndo atrás de ilusões, como descobertas de tesouros, uma chance aleatória favorável, o recebimento de heranças inesperadas, etc. O que dizer daqueles que esperam encontrar, para ajudá-lo nas buscas dessa natureza, auxiliares entre os Espíritos? Certamente eles não conhecem e nem compreendem o objetivo sagrado do Espiritismo, e ainda menos a missão dos Espíritos, a quem Deus permite comunicarem-se com os homens. Mas justamente por isso, são punidos pelas decepções. (O Livro dos Médiuns, nº 294, 295).
Aqueles, cuja intenção é isenta de qualquer interesse pessoal, devem consolar-se com a impossibilidade de fazer todo o bem que gostariam, lembrando que o óbolo do pobre, que doa mesmo se privando, pesa mais na balança de Deus que o ouro do rico, que dá sem privar-se de nada. A satisfação seria grande, sem dúvida, de poder socorrer largamente a indigência; mas, se isso é impossível, é preciso submeter-se e fazer o que se pode. Além disso, não é somente com o ouro que se podem enxugar as lágrimas, e devemos ficar parados só porque não o possuímos? Aquele que deseja sinceramente tornar-se útil aos seus irmãos, encontra mil oportunidades para tanto, bastando procurar para encontrá-las. Se não for de uma maneira, será de outra, pois não há ninguém que, estando em pleno gozo de suas faculdades, não possa prestar algum serviço, dar um consolo, amenizar um sofrimento físico ou moral, tomar uma providência útil. Na falta de dinheiro, cada um não tem o seu tempo, o seu repouso, dos quais pode oferecer um pouco? Isso também é a esmola do pobre, o óbolo da viúva.


(1) Gazofilácio: Lugar do templo em que se guardavam os vasos e se recolhiam as oferendas. As traduções ao português dos textos bíblicos, tanto do Velho quanto do Novo Testamento, trazem ora cofre das ofertas, ora arca do tesouro. (N. do E.)


Biografia de Allan Kardec
Denisard Hypolite Leon Rivail (1) esse é o verdadeiro nome de Allan Kardec. Nasceu em Lyon, França, a 3 de Outubro de 1804. Seus pais eram Jean Baptiste Antoine Rivail e Jeanne Louise Duhamel, família de dignas tradições. Kardec em tenra idade revelou uma inteligência brilhante, inclinando-se para as ciências e para assuntos filosóficos. Foi aluno de Pestalozzi no Instituto de Yverdon (Suíça), uma das mais renomadas escolas da época. Cercado por colegas tão brilhantes quanto ele, aos 14 anos já ensinava o que aprendia aos colegas. Essa particular atenção para com os problemas educacionais chamou a atenção de Pestalozzi, granjeando-lhe a simpatia e a admiração.
Conquistou diversas honrarias e tornou-se membro de diversas Sociedades e Institutos durante sua carreira de professor e diretor de colégio. Sua postura pedagógica o fazia um pesquisador de extrema erudição. Viveu numa época em que os estudos ganhavam cunho empírico. Essa herança de formação foi primordial para que no futuro o trabalho da Codificação fosse realizado. O professor Rivail ganhou notoriedade invulgar, sendo detentor das seguintes honrarias:
". Diploma de fundador da Sociedade de Previdência dos Diretores de Colégios e Internatos de Paris (1829);
. Diploma da Sociedade para Instrução Elementar (1847). Secretário Geral: H. Carnot;
. Diploma do Instituto de Línguas, fundado em 1873. Presidente: Conde Le Peletier-Jaunay;
. Diploma da Sociedade de Ciências Naturais de França (1835). Presidente: Geoffrey de Saint-Hilaire;
. Diploma da Sociedade de Educação Nacional, constituída pelos diretores de Colégios e de Internatos da França;
. Diploma da Sociedade Gramatical, fundada em Paris, em 1807, por Urbain Domergue (1829);
. Diploma da Sociedade de Emulação e de Agricultura do Departamento do Ain (1828), onde Rivail fora designado para expor e apresentar em França o método de Pestalozzi;
. Diploma do Instituto Histórico, fundado em 24 de dezembro de 1833 e organizado a 6 de abril de 1834. Presidente: Michaud, membro da Academia Francesa;
. Diploma da Sociedade Francesa de Estatística Universal, fundada em Paris, a 22 de novembro de 1820, por César Moreau;
. Diploma da Sociedade de Incentivo à Indústria Nacional, fundada por Jomard, membro do Instituto;
. Diploma da Academia Real de Ciências de Arrás." (Trecho do Livro: "Grandes Espíritas do Brasil", Z. Wantuil.)

Rivail e o Espiritismo
Humanista ligado ao pensamento empírico e racional vigente em sua época, Rivail, ao entrar em contato pela primeira vez com os fenômenos espirituais, procurou observar-lhes as características lógicas. Não poderia ser diferente, quando um amigo, Sr. Fortier, lhe revela que, em certa casa, as mesas não eram apenas girantes, mas também falantes. A primeira reação de Rivail foi constatar a veracidade do fato. Ele era profundo conhecedor do Magnetismo e, como outros observadores e magnetizadores, acreditava que os fenômenos eram apenas manipulações de fluido magnético. Frente a frente aos fatos, o perspicaz professor logo observou, com seriedade, o que muitos utilizavam como passatempo. Após árduas pesquisas e profundo estudo, concluiu que a causa inteligente por trás daqueles fenômenos, eram os Espíritos daqueles que já haviam partido, deduzindo, assim, as leis que regem esses fenômenos. A partir desse momento, traz à luz, todo um corpo de doutrina, explicitado na Filosofia Espírita, plena de conhecimento superior.
Com essa percepção, Rivail, futuro Allan Kardec, passou a freqüentar inúmeras reuniões, levando perguntas sistematizadas sobre diversos problemas, às quais os Espíritos respondiam com "precisão, profundeza e lógica". Em casa do Sr. Roustan, a 30 de abril de 1856, a médium Japhet lhe transmitiu a primeira revelação positiva da missão que teria de desempenhar. Humildemente, Kardec recebeu uma página do Espírito da Verdade que lhe confirmava haver sido escolhido para tão grandiosa missão. "Confirmo o que te foi dito, mas recomendo-te discrição, se quiseres sair-te bem. Não te esqueças que tanto podes vencer como falir. Neste último caso, outro te substituiria, porquanto os desígnios de Deus não assentam na cabeça de um só homem."
Segue-se o trabalho, e a 18 de abril de 1857, é finalmente lançado O Livro dos Espíritos contendo a base da Doutrina Espírita, as Leis Morais, Esperanças e Consolações.

O surgimento de Allan Kardec
"No momento de publicá-lo" - diz Henri Sausse, biógrafo de Kardec - "o autor ficou muito embaraçado em resolver como assinaria, se com o seu nome, Denisard Hypolite Leon Rivail, ou através de pseudônimo. Sendo seu nome muito conhecido do mundo científico, em virtude dos seus trabalhos anteriores e podendo originar equívocos, talvez até mesmo prejudicar o êxito do empreendimento, optou por assinar com o nome de Allan Kardec, nome que, segundo lhe revelara um Espírito, tivera ao tempo dos Druidas."
Após o o lançamento de O Livro dos Espíritos, seguiram-se outros: Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas - O que é o Espiritismo - Carta sobre o Espiritismo - O Livro dos Médiuns - O Espiritismo na sua expressão mais simples - Viagem Espírita em 1862 - Resposta à mensagem dos Espíritas Lioneses por ocasião do Ano Novo - Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas, ou Primeira Iniciação - Imitação do Evangelho Segundo o Espiritismo, daí originando O Evangelho Segundo o Espiritismo - Coleção de composições inéditas extraídas de O Evangelho Segundo o Espiritismo - A Gênese - O Céu e o Inferno - Coleção de Preces Espíritas - Estudo acerca da poesia medianímica - Caracteres da Revelação Espírita - Obras Póstumas - Revista Espírita.
Nos seus últimos anos de vida, Kardec tornara-se um homem universal - segundo o Sr. André Moreil (La Vie et l'Oeuvre d'Allan Kardec, Paris, 1961). Em preparativos de mudança de residência, em 31 de março de 1869, aos 65 anos incompletos, é vítima de um aneurisma que o leva ao desenlace. Em seu enterro, no Cemitério de Montmartre, dentre outros oradores, o astrônomo Camille Flammarion destacou a contribuição de Allan Kardec para o mundo científico e filosófico.
Atualmente, os despojos mortais de Kardec encontram-se no centro do monumento druídico, no Cemitério Père-Lachaise, em Paris.

(1) A documentação tida como oficial (certidões de casamento, óbito e testamento), divulgada por seu biógrafo Henri Sausse e que atestava o nome de Allan Kardec como Hippolyte Léon Denizard Rivail, em verdade foi oficialmente contestada pelo seu registro Civil (Ato de Nascimento): "Du douze vendémiaire de l'an treize - Acte de naissance de Denisard, Hypolite Léon Rivail, né hier soir à sept heures, fils de Jean Baptiste Antoine Rivail homme de loi; demeurant à Bourg de L'Ain, et actuellement à Paris, et de Jeanne Louise Duhamel Son Épouse. Le sexe de l' enfant a été reconnu masculin. Temoins majeurs Syriaque Frederic Dittmar, Directeur de l'Etablissement des Eaux minerales, surdite rue Sala, et Jean François Targe, demeurant même rue. Sur la réquisition de Sr. Pierre Rodamel, medecin, demeurant rue Saint Dominique, nº78. Lecture faite, et ont signé. Constaté por moi maire soussigné/ et de présent à Lyon, rue Sala nº74. renvoy approuvél."
"Em doze vendemiário do ano treze - Ato de nascimento de Denisard, Hypolite Léon Rivail, nascido ontem às sete horas da noite, filho de Jean Baptiste Antoine Rivail, homem de lei; residente em Bourg de l'Ain, e atual mente em Paris, e de Jeanne Louise Duhamel, sua esposa. O sexo da criança foi reconhecido masculino. Testemunhas maiores: Syriaque Frederic Dittmar, Diretor do Estabelecimento de Águas Minerais, sobredita rua Sala, e Jean François Targe, residente à mesma rua. Sob requisição do Sr. Pierre Rodamel, médico residente à rua Saint Dominique, nº78. Leitura feita, e assinaram. Constatado por mim, prefeito abaixo assinado/ e presentemente em Lyon, rue Sala nº 74. Aditamento aprovado." Fonte: O Reformador: Allan Kardec e o seu nome civil (W. L. N. Fernandes), abril 2000.
Portanto, conforme o exposto acima, seu nome foi registrado como Denisard Hypolite Léon Rivail, embora o próprio codificador preferisse assinar de maneira diferente, ou seja, Hippolyte Léon Denizard Rivail, conforme consta no registro de batismo. Todas as certidões emitidas demonstram variações na grafia, o que indica que não foram redigidas com base em seu registro oficial. (N. do E.)

 



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