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Maravilhoso e o Sobrenatural –Cap.
II– Livro dos Médiuns– (questões
7 a 11)
7) Se a crença nos Espíritos e nas suas
manifestações fosse uma concepção
isolada, o produto de um sistema, poderia com certa
razão ser suspeita de ilusória. Mas
quem nos diria então porque ela se encontra
tão viva entre todos os povos antigos e modernos,
nos livros santos de todas as religiões conhecidas?
Isso, dizem alguns críticos, é porque
o homem, em todos os tempos, teve amor ao maravilhoso.
– Mas que é o maravilhoso, segundo vós?
– Aquilo que é sobrenatural. –
E que entendeis por sobrenatural? – O que é
contrário às leis da Natureza. –
Então conheceis tão bem essas leis que
podeis marcar limites ao poder de Deus? Muito bem!
Provai então que a existência dos Espíritos
e suas manifestações são contrárias
às leis da Natureza; que elas não são
e não podem ser uma dessas leis. Observai a
Doutrina Espírita e vereis se no seu encadeamento
elas não apresentam todas as características
de uma lei admirável, que resolve tudo o que
os princípios filosóficos até
agora não puderam resolver.
O pensamento é um atributo do Espírito.
A possibilidade de agir sobre a matéria, de
impressionar os nossos sentidos, e portanto de transmitir-nos
o seu pensamento é uma consequência,
podemos dizer, da sua própria constituição
fisiológica. Não há, pois, nesse
fato, nada de sobrenatural, nada de maravilhoso.(1)
Mas que um homem morto e bem morto possa ressuscitar
corporalmente, que os seus membros dispersos se reúnam
para restabelecer-lhe o corpo, eis o que é
maravilhoso, sobrenatural, fantástico. Isso
sim, seria uma verdadeira derrogação,
que Deus só poderia fazer através de
um milagre. Mas não há nada de semelhante
na Doutrina Espírita.
(1) A Parapsicologia confirma hoje cientificamente,
através de pesquisas de laboratório,
a naturalidade desses fenômenos (N do T.)
8) Não obstante, dirão, admite-se
que um Espírito pode elevar uma mesa e sustentá-la
no espaço sem um pouco de apoio. Isso não
é uma derrogação da lei da gravidade?
– Sim, da lei conhecida; mas a Natureza já
vos disse a última palavra? Antes das experiências
com a força ascensional de certos gases quem
diria que uma pesada máquina, carregando muitos
homens, poderia vencer a força de atração?
Aos olhos do vulgo, isso não deveria parecer
maravilhoso, diabólico? Aquele que se propusesse
a transmitir, há um século, uma mensagem
a quinhentas léguas de distância e obter
a resposta em alguns minutos passaria por louco. Se
o fizesse, acreditariam que tinha o Diabo às
suas ordens, pois então só o Diabo era
capaz de andar tão ligeiro. Por que, pois,
um fluido desconhecido não poderia, em dadas
circunstâncias, contrabalançar o efeito
da gravidade, como o hidrogênio contrabalança
o peso do balão? Isto, notemos de passagem,
é apenas uma comparação, feita
unicamente para mostrar, por analogia, que o fato
não é fisicamente impossível.
Não se trata de identificar uma coisa à
outra. Ora, foi precisamente quanto os sábios,
ao observarem estas espécies de fenômenos,
quiseram proceder por identificação,
que acabaram por se enganando a respeito. De resto,
o fato existe e todas as negações não
poderiam destrui-lo, por que negar não é
provar. Para nós, não há nada
de sobrenatural e é tudo quanto podemos dizer
por agora.
9) Se o fato está provado, dirão: nós
o aceitamos. E aceitarmos até mesmo a causa
que lhe atribuis, ou seja, a de um fluido desconhecido.
Mas quem prova a intervenção dos Espíritos?
É nisso que está o maravilhoso, o sobrenatural.
Seria necessário, neste caso, toda uma demonstração
que não seria cabível e constituiria,
aliás, uma redundância, porque ela ressalta
de todo o ensino. Entretanto, para resumi-la em duas
palavras, diremos que teoricamente ela se funda neste
princípio: todo efeito inteligente deve ter
uma causa inteligente. Praticamente: sobre a observação
de que se fenômenos ditos espíritas,
tendo dado provas de inteligência, não
podem ter sua causa na matéria; que essa inteligência,
não sendo a dos assistentes, - o que resultou
das experiências, - devia ser independente deles;
e desde que não se via o ser que os produzia,
devia tratar-se de um ser invisível, ao qual
se deu o nome de Espírito, não é
mais do que a alma dos que viveram corporalmente e
aos quais a morte despojou de seu grosseiro envoltório
visível, deixando-lhes apenas um envoltório
etéreo, invisível no seu estado normal.
Eis, pois, o maravilhoso e o sobrenatural reduzidos
à mais simples expressão. Constatada
a existência dos seres invisíveis, sua
ação sobre a matéria resulta
da natureza do seu envoltório fluídico.
Esta ação é inteligente, porque,
ao morrer, eles perderam apenas o corpo, conservando
a inteligência que constitui a sua existência.
Esta a chave de todos esses fenômenos considerados
erroneamente sobrenaturais. A existência dos
Espíritos não decorre, pois, de um sistema
preconcebido, de uma hipótese imaginada para
explicar os fatos, mas é o resultado de observações
e a consequência natural da existência
da alma. Negar essa causa é negar a alma e
os seus atributos. (1) Os que pensarem que podem encontrar
para esses efeitos inteligentes uma solução
mais racional, podendo sobretudo explicar a razão
de todos os fatos, queiram fazê-lo, e então
poder-se-á discutir o mérito de ambas.
(2)
(1) Hoje, os parapsicólogos chegam a essa
mesma conclusão: o prof. Rhine afirma que o
pensamento é extrafísico e age sobre
a matéria; os profs. Carington, Soal, Price
e outros admitem a ação de mentes desencarnadas
na produção dos fenômenos psikapa
(efeitos físicos). (N.doT.)
(2) O prof. Ernesto Bozzano chama a isto “convergência
das provas”, mostrando a necessidade científica
de uma hipótese explicar todos os fenômenos
da mesma natureza e não apenas alguns deles.
(N. do T.)
10) Aos olhos daqueles que vêem na matéria
a única potência da Natureza, tudo o
que não pode ser explicado pelas leis materiais
é maravilhoso ou sobrenatural, e, para eles,
maravilhoso é sinônimo de superstição.
Dessa maneira a religião, que se funda na existência
de um princípio imaterial, é um tecido
de superstições. Eles não ousam
dizê-lo em voz alta, mas o dizem baixinho. E
pensam salvar as aparências ao conceber que
é necessária uma religião para
o povo e para tornar as crianças acomodadas.
Ora, de duas, uma: ou o princípio religioso
é verdadeiro ou é falso. Se for verdadeiro,
o é para todos; se for falso, não é
melhor para os ignorantes do que para os esclarecidos.
11) Os que atacam o Espiritismo em nome do maravilhoso
se apóiam, portanto, em geral, no princípio
materialista, desde que negando todo efeito de origem
extramaterial, negam consequentemente a existência
da alma. Sondai o futuro de seu pensamento, perscrutai
o sentido de suas palavras e encontrareis quase
sempre esse princípio, que, se não
se mostra categoricamente formulado, transparece
sob a capa de uma pretensa filosofia moral com que
eles se disfarçam. Rejeitando como maravilhoso
tudo quanto decorre da existência da alma,
eles são, portanto, conseqüentes consigo
mesmo. Não admitindo a causa, não
podem admitir o efeito. Daí o preconceito
que os impede de julgar com isenção
o Espiritismo, pois partem da negação
de tudo o que não seja material. Quanto a
nós, pelo fato de admitirmos os efeitos decorrentes
da existência da alma, teríamos de
aceitar todos os fatos qualificados de maravilhosos,
teríamos de ser os campeões dos visionários,
os adeptos de todas as utopias, de todos os sistemas
excêntricos? Seria necessário conhecer
bem pouco do Espiritismo para assim pensar. Mas
os nossos adversários não se importam
com isso; a necessidade de conhecer aquilo de que
falam é o que menos lhes interessa.
Segundo eles, o maravilhoso é absurdo; ora,
o Espiritismo se apóia em fatos maravilhosos;
logo, o Espiritismo é absurdo: isto é
para eles um julgamento inapelável. Crêem
apresentar um argumento sem resposta quando, após
eruditas pesquisas sobre o convulsionários
de Saint-Médard, os camisards das Cévennes
ou as religiosas de Loudun, chegam à descoberta
de evidentes trapaças que ninguém
contesta. Mas essas histórias são,
por acaso, o evangelho do Espiritismo? Seus partidários
teriam negado que o charlatanismo explorou alguns
fatos em proveito próprio? Que a imaginação
os tenha engendrado? Que o fanatismo tenha exagerado
a muitos deles? O Espiritismo não é
mais responsável pelas extravagâncias
que se possam cometer em seu nome, do que a verdadeira
Ciência pelos abusos da ignorância ou
a verdadeira Religião pelos excessos do fanatismo.
Muitos críticos só julgam o Espiritismo
pelos contos de fadas e pelas lendas populares que
são apensas as formas de sua ficção.
O mesmo seria julgar a História pelos romances
históricos ou pelas tragédias.
fonte:Literal do O Livro dos
Médiuns- editado pela Lake
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