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Ensaio Teórico
sobre as Aparições – L.M.
(Questões 101 a 110)
101) As manifestações mais comuns
de aparições ocorrem durante o
sono, pelos sonhos: são as visões.
Não podemos examinar aqui todas as particularidades
que os sonhos podem apresentar.
Resumiremos dizendo que eles podem ser: uma
visão atual de coisas presentes ou distantes;
uma visão retrospectiva do passado; e,
em alguns casos excepcionais, um pressentimento
do futuro. Freqüentemente são também
quadros alegóricos que os Espíritos
nos apresentam como úteis advertências
ou salutares conselhos, quando são Espíritos
bons; ou para nos enganarem e entreterem as
nossas paixões, se são Espíritos
imperfeitos. A teoria abaixo se aplica aos sonhos,
como a todos os outros casos de aparições.
(Ver o Livro dos Espíritos, no. 400 e
seguintes).
Não ofenderemos o bom senso dos leitores
refutando o que há de absurdo e ridículo
no que vulgarmente se chama de interpretação
dos sonhos (1).
(1) Kardec se refere à arte vulgar
de interpretação dos sonhos e
não aos processos psicológicos
hoje empregados na terapêutica. Quanto
a esses processos, referem-se apenas a um aspecto
dos sonhos, realmente significativo do ponto
de vista psicológico, mas muitas vezes
mal interpretado, por falta de visão
de conjunto e que escolas como a de Karl Jung
já procuram atingir. (N. do T.)
102) As aparições, propriamente
ditas, ocorrem no estado de vigília,
no pleno gozo e completa liberdade das faculdades
da pessoa. Apresentam-se geralmente com uma
forma vaporosa e diáfana, algumas vezes
vaga e indecisa. Quase sempre, a princípio,
é um clarão esbranquiçado,
cujos contornos vão se desenhando aos
poucos. De outras vezes as formas são
claramente acentuadas, distinguindo-se os menores
traços do rosto, a ponto de se poder
descrevê-las com precisão. As maneiras,
o aspecto, são semelhantes aos do Espírito
quando encarnado.
Podendo tomas todas as aparências, o Espírito
se apresenta com aquela que melhor o possa identificar,
se for esse o seu desejo. Assim, embora não
tenha como Espírito, nenhum defeito corporal,
ele se mostra estropiado, coxo, corcunda, ferido,
com cicatrizes, se isso for necessário
para identificá-lo. Esopo, por exemplo,
não é disforme como Espírito,
mas se o evocarmos como Esopo, por mais existências
posteriores que tenha tido, aparecerá
feito e corcunda, com seus trajes tradicionais.
Uma particularidade a notar é que exceto
em circunstâncias especiais, as partes
menos precisas da aparição são
os membros inferiores, enquanto a cabeça,
o tronco, os braços e as mãos
aparecem nitidamente. Assim, não os vemos
quase nunca andar, mas deslizar como sombras.
Quanto às vestes, ordinariamente se constituem
de um planejamento que termina em longas pregas
flutuantes. São essas, em resumo, acrescentadas
por uma cabeleira ondulante e graciosa, as características
da aparência dos Espíritos que
nada conservam da vida terrena. Mas os Espíritos
comuns, das pessoas que conhecemos, vestem-se
geralmente como o faziam nos últimos
dias de sua existência.
Há os que muitas vezes se apresentam
com símbolos da sua elevação,
como uma auréola ou asas, pelo que são
considerados anjos. Outros carregam instrumentos
que lembram suas atividades terrenas: assim
um guerreiro poderá aparecer com uma
armadura, um sábio com seus livros, um
assassino com seu punhal, e assim por diante.
Os Espíritos superiores apresentam uma
figura bela, nobre e serena. Os mais inferiores
têm algo de feroz e bestial, e algumas
vezes ainda trazem os vestígios dos crimes
que cometeram ou dos suplícios que sofreram.
O problema das vestes e dos objetos acessórios
é talvez mais intrigante. Voltaremos
a tratar disso num capítulo especial,
porque ele se liga a outras questões
muito importantes.
103) Dissemos que a aparição tem
algo de vaporoso. Em alguns casos poderíamos
compará-la à imagem refletida
num espelho sem aço, que apesar de nítida
deixa ver através dela os objetos detrás.
É geralmente assim que os médiuns
videntes as distinguem. Eles as vêem ir
e vir, entrar num apartamento ou sair, circular
por entre a multidão com ares de quem
participa, ao menos os Espíritos vulgares,
de tudo o que se faz ao seu redor, de se interessarem
por tudo e ouvirem o que diz. Muitas vezes se
aproximam duma pessoa para lhe assoprar idéias,
influenciá-la, quando são Espíritos
bons, zombar dela quando são maus, mostrando-se
tristes ou contentes com o que obtiveram. São
, em uma palavra, a contraparte do mundo corporal.
É assim esse mundo oculto que nos envolve,
no meio do qual vivemos sem o perceber, como
vivemos entre as miríades de seres do
mundo microscópico. A revelação
do mundo dos infinitamente pequenos, de que
não suspeitávamos, foi feita pelo
microscópio: o Espiritismo, servindo-se
dos médiuns videntes, nos revelou o mundo
dos Espíritos, que é também
uma das forças ativas da natureza. Com
a ajuda dos médiuns videntes pudemos
estudar o mundo invisível, iniciar-nos
n os seus hábitos , como um povo de cegos
poderia estudar o mundo dos que vêem com
o auxílio de algumas pessoas que gozassem
da faculdade da visão. (Ver adiante,
no cap. XIV; Dos Médiuns, o tópico
referente aos médiuns videntes.)
104) O Espírito que deseja ou pode aparecer
reveste algumas vezes uma forma ainda mais nítida,
com todas as aparências de um corpo sólido,
a ponto de dar uma ilusão perfeita e
fazer crer que se trata de um ser corpóreo.
Em alguns casos, e dentro de certas circunstâncias,
a tangibilidade pode tornar-se real, o que quer
dizer que podemos tocar, palpar, sentir a resistência
e o calor de um corpo vivo, o que não
impede a aparição de se esvanecer
com a rapidez de um relâmpago. Nesses
casos, já não é só
pelos olhos que se verifica a presença,
mas também pelo tato.
Se pudéssemos atribuir à ilusão
ou a uma espécie de fascinação
a ocorrência de uma aparição
simplesmente visual, a dúvida já
não é mais possível quando
a podermos pegar, e quando ela mesma nos segura
e abraça. As aparições
tangíveis são as mais raras. Mas
as que têm ocorrido nestes últimos
tempos, pela influência de alguns médiuns
potentes (2), inteiramente autenticadas por
testemunhos irrecusáveis, provam e explicam
os relatos históricos sobre as pessoas
que reapareceram após a morte com todas
as aparências da realidade. De resto,
como já acentuamos, por mais extraordinários
que sejam semelhantes fenômenos, perdem
todo o caráter de maravilhoso quando
se conhece a maneira pela qual se produzem e
se compreende que, longe de representarem uma
derrogação das leis naturais,
apresentam apenas uma nova aplicação
dessas leis.
(2) Entre outros, o Dr. Home (A esta nota de
Kardec devemos acrescentar os fatos atuais,
constantes de experiências e observações
parapsicológicas. Ver, entre outros,
Canais Ocultos da Mente de Louise Rhine. (N.
do T.)
105) O perispírito, por sua própria
natureza, é invisível no estado
normal. Isso é comum a uma infinidade
de fluidos que sabemos existirem e que jamais
vimos. Mas ele pode também, à
semelhança de certos fluídos,
passar por modificações que o
tornem visível, seja por uma espécie
de condensação ou por uma mudança
em suas disposições moleculares,
e é então que nos aparece de maneira
vaporosa. A condensação pode chegar
a ponto de dar ao perispírito as propriedades
de um corpo sólido e tangível
mas que pode instantaneamente voltar ao seu
estado etéreo e invisível.
(É necessário não tomar
ao pé da letra a palavra condensação,
pois só a empregamos por falta de outra
e como simples recurso de comparação.
Podemos entender esse processo ao compará-lo
ao do vapor, que pode passar da invisibilidade
a um estado brumoso, depois ao líquido,
a seguir ao sólido e vice-versa).
Esses diversos estados do perispírito,
entretanto, resultam da vontade do Espírito
e não de causas físicas e exteriores,
como acontece com os gases. O Espírito
nos aparece quando deu ao seu perispírito
a condição necessária para
se tornar visível. Mas a simples vontade
não basta para produzir esse efeito,
porque a modificação do perispírito
se verifica mediante a sua combinação
nem sempre é possível, e isso
explica por que a visibilidade dos Espíritos
não é comum.
Assim, não é suficiente que o
Espírito queira aparecer, nem apenas
que uma pessoa o queira ver: é necessário
que os fluídos de ambos possam combinar-se,
para o que tem de haver entre eles uma espécie
de afinidade. É necessário ainda
que a emissão do fluído da pessoa
seja abundante para operar a transformação
do perispírito, e provavelmente há
outras condições que desconhecemos.
Por fim, é preciso que o Espírito
tenha a permissão de aparecer para aquela
pessoa, o que nem sempre lhe é concedido,
ou pelo menos não o é em certas
circunstâncias, por motivos que não
podemos apreciar. (3)
(3)Entre esses motivos figuram as condições
da prova por que passa a pessoa ou o Espírito,
os inconvenientes emocionais para a pessoa,
as complicações familiais que
poderia resultar e assim por diante. (N. do
T.)
106) Outra propriedade do perispírito
é a penetrabilidade, inerente à
sua natureza etérea. Nenhuma espécie
de matéria lhe serve de obstáculo:
ele atravessa a todas, como a luz atravessa
os corpos transparentes. Não há
pois, meios de impedir a entrada dos Espíritos,
que vão visitar o prisioneiro em sua
cela com a mesma facilidade com que visitam
um homem no meio do campo. (4)
(4)As pesquisas parapsicológicas
da atualidade confirmam plenamente essa explicação.
A escola do Rhine sustenta a inexistência
de barreiras físicas para a transmissão
do pensamento e a percepção a
distância e a escola russa tentou em vão
provar o contrário. (N. do T.)
107) As aparições no estado de
vigília não são raras nem
constituem novidade. Verificaram-se em todos
os tempos. A História oferece-nos grande
número de casos. Mas sem remontar ao
passado, encontramo-las com freqüência
nos nossos dias. Muitas pessoas as tiveram e
as tomaram no primeiro instante, pelo que se
convencionou chamar de alucinações.
São freqüentes sobretudo nos casos
de morte de pessoas distantes, que vêem
visitar parentes e amigos. Muitas vezes não
têm um objetivo claro, mas podemos dizer
que em geral os Espíritos que assim aparecem
são atraídos por simpatia. Que
examine cada um as suas lembranças e
verá que são poucos os que não
conhecem fatos dessa espécie, cuja autenticidade
não se poderia pôr em dúvida.
108) Acrescentaremos às considerações
precedentes o exame de alguns efeitos ópticos
que deram lugar ao estranho sistema dos Espíritos
glóbulos.
Nem sempre o ar está inteiramente límpido.
É então que as correntes de moléculas
aeriformes e sua movimentação,
produzida pelo calor, se tornam perfeitamente
visíveis. Algumas pessoas tomaram isso
por conjuntos de espíritos agitando-se
no espaço. Basta-nos mencionar esta opinião
para a refutar. Mas há outra espécie
de ilusão, não menos bizarra,
contra a qual se deve também precaver.
O humor, aquoso do olho tem alguns pontos mal
perceptíveis que perderam algo de sua
transparência. Esses pontos são
como corpos opacos em suspensão no líquido
que os movimenta. Eles projetam no ar ambiente
e a distância, aumentados pela refração,
pequenos discos aparentes, de um a dez milímetros
de diâmetro, que parecem nadar na atmosfera.
Vimos pessoas tomarem esses discos por Espíritos
que as seguiam por toda parte, e no seu entusiasmo
vêem figuras nas nuanças da irisação,
o que é quase o mesmo que ver uma figura
na Lua. Bastaria uma simples observação,
feita por elas mesmas, para reconduzi-las à
realidade.
Esses discos ou medalhões, dizem elas,
além de acompanhá-las repetem
os seus movimentos: vão para a direita
e para a esquerda, para cima e para baixo, segundo
ela movem a cabeça. Isso nada tem de
estranho, desde que os discos são projetados
pelo globo ocular e devem naturalmente obedecer
aos seus movimentos. Se fossem Espíritos,
deveriam estar adstritos a um movimento demasiado
mecânico para seres inteligentes e livres.
Papel, aliás, bem cansativo, mesmo para
Espíritos inferiores, e com mais forte
razão incompatível com a idéia
que fazemos dos Espíritos superiores.
É verdade que alguns tomam por maus Espíritos
os pontos negros ou moscas amauróticas.
(5)
(5) Moscas amauróticas são
pontos negros que aparecem na visão por
motivo de atrofia do nervo óptico, produzindo
cegueira parcial ou total sem prejuízo
do globo ocular. Amaurose ou gota-serena (N.
do T.)
Os discos, assim como as manchas negras, têm
um movimento ondulatório restrito a um
certo ângulo, e o que aumenta a ilusão
é que eles não seguem bruscamente
os movimentos da linha visual. A razão
é muito simples. Os pontos opacos do
humor aquoso, causa primeira do fenômeno,
estão em suspensão no líquido
e tendem a descer. Sobem com o movimento dos
olhos, mas atingindo certa altura, se fixamos
o olhar vemos os discos descerem por si mesmos
e depois pararem. Sua mobilidade é extrema,
pois basta um movimento imperceptível
do olho para mudá-los de direção
e fazê-los percorrer rapidamente toda
a amplitude do arco, no espaço em que
a imagem se produz. Enquanto não se provar
que essa imagem tem movimento próprio,
espontâneo e inteligente, só se
pode ver nisso um fenômeno óptico
e fisiológico.
Acontece o mesmo com as centelhas produzidas
pela contração dos músculos
dos olhos, que aparecem e feixes mais ou menos
compactos e que são provavelmente devidos
à eletricidade fosforescente da íris,
pois em geral se circunscrevem ao círculo
desse disco.
Semelhantes ilusões só podem resultar
de observação imperfeita. Quem
tiver seriamente estudado a natureza dos Espíritos,
através dos meios oferecidos pela prática
doutrinária, compreenderá quanto
elas têm de pueril. Assim como combatermos
as teorias temerárias com as quais atacam
as comunicações, pois que decorrem
da ignorância dos fatos, também
devemos procurar destruir as idéias falsas
que decorrem mais do entusiasmo do que da reflexão,
e que por isso mesmo produzem mais mal do que
bem junto aos incrédulos, já naturalmente
dispostos a procurar o lado ridículo.
109) O perispírito, como se vê,
é o princípio de todas as manifestações.
Seu conhecimento nos deu a chave de numerosos
fenômenos, permitindo um grande avanço
à Ciência Espírita e fazendo-a
entrar numa nova senda ao tirar-lhe qualquer
resquício de maravilhoso. Nele encontramos,
graças aos próprios Espíritos,
pois é bom notar que foram eles que nos
indicaram o caminho, a explicação
da possibilidade de ação do Espírito
sobre a matéria, da movimentação
dos corpos inertes, dos ruídos e das
aparições. Nele encontraremos
a explicação de muitos outros
fenômenos ainda por examinar, antes de
passar ao estudo das comunicações
propriamente ditas. Tanto melhor as compreendermos,
quanto mais n os inteirarmos de suas causas
fundamentais. Se bem compreendermos esse princípio,
facilmente poderemos aplicá-los aos diversos
fatos que se apresentarem à observação.
110) Longe de nós considerar a teoria
que apresentamos como absoluta e como sendo
a última palavra na questão. Ela
será sem dúvida completada ou
retificada mais tarde através de novos
estudos. Mas por mais incompleta a possibilidade
dos fenômenos por meios que nada têm
de sobrenatural. Se for uma hipótese,
não se lhe pode entretanto negar o mérito
da racionalidade e da probabilidade, e que vale
tanto quanto todas as explicações
tentadas pelos navegadores para provar que tudo
não passa de ilusão, fantasmagoria
e evasiva nos fenômenos espíritas.
(6)
(6) A posição de Kardec é
inegavelmente científica. Essa teoria
do perispírito não foi desmentida
nestes cem anos. Pelo contrário, as hipóteses
psicológicas atuais confirmam essa teoria
no campo da Parapsicologia. Vejam-se as hipóteses
de Carington sobre as estruturas de sensas e
psicons, as de Soal, Broad, Tishner e outros.
(N. do T.)
Bibliografia - O Livro
dos Médiuns- Editora FEB-
As publicações da Codificação
Kardequiana de qualquer editora são válidas
para o acompanhamento do curso.
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