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Teoria das Manifestações Físicas (II) – L.M. - cap. IV (75 a 81)


75- Essas explicações são claras, categóricas, sem ambigüidades. Delas ressalta o ponto capital de que o fluido universal, que encerra o princípio da vida, é o agente principal das manifestações, e que esse agente recebe seu impulso do Espírito, quer seja encarnado ou errante. O fluido condensado constitui o perispírito ou invólucro semimaterial do Espírito. (1) Na encarnação, o perispírito está ligado à matéria do corpo; na erraticidade está livre. Quando o Espírito está encarnado, a substância do perispírito está mais ou menos fundida com a matéria corpórea, mais ou menos colada a ela, se assim podemos dizer. (2) Em algumas pessoas há uma espécie de emanação desse fluido, em conseqüência de condições especiais de sua organização, e é disso, propriamente falando, que resultam de os médiuns efeitos físicos. A emissão do fluido animalizado pode ser mais ou menos abundante e sua combinação mais ou menos fácil, e daí os médiuns mais ou menos possantes. Mas essa emissão não é permanente, o que explica a intermitência da força. (3)


(1) A teoria da condensação do fluido foi posta em ridículo por muitas pessoas, e ainda hoje o é. Mas convém assinalar que essa teoria é precisamente a da física atômica de hoje, para explicar a formação da matéria, que se dá pela condensação de energia. (N. do T.)
(2) Preferimos as palavras fundida e colada, em substituição às palavras ligada e aderente, usadas literalmente em várias traduções, porque aquelas nos parecem corresponder melhor, em nossa língua, ao sentido real do texto.
(3) Esta teoria da emanação e da emissão do fluido animalizado ou fluido perispirítico do médium, e de sua combinação mais ou menos fácil com o fluido universal do Espírito, para a produção dos fenômenos de efeitos físicos e conseqüentemente de materializações, exige atenção do leitor, para bem compreender o desenvolvimento dos fenômenos. A última frase é de grande importância para explicar as intermitências das funções mediúnicas, cuja causa é muitas vezes orgânica e se costuma atribuir a motivos morais. (N. do T.)


76 - Façamos uma comparação. Quando queremos atingir alguma coisa situada a distância de nós, é pelo pensamento que o tentamos, mas o pensamento sozinho não poderia realizar o nosso intento. Precisamos de um instrumento que o pensamento dirigirá: um bastão, um projétil, um assopro, etc. Note-se ainda que o pensamento não age diretamente sobre o bastão, que precisamos pegar. A inteligência, que é o próprio Espírito encarnado em nosso corpo, está unida ao corpo pelo perispírito e não pode agir sobre o corpo sem perispírito, da mesma maneira que não pode agir sobre o bastão sem o corpo. Assim: ela age sobre o perispírito, que é a substância com que tem mais afinidade, o perispírito age sobre os músculos, estes fazem a mão pegar o bastão e o bastão atinge o alvo. Quando o Espírito não está encarnado necessita de um instrumento que não pertence ao seu organismo: esse instrumento é o fluido, com o auxílio do qual torna o objeto apropriado a realizar o impulso da sua vontade.

77 - Quando, pois, um objeto é movido, erguido ou atirado no ar, o Espírito não o pegou, não o ergueu nem o atirou como nós o fazemos com as mãos. Ele o saturou, por assim dizer, como o seu fluido, combinado com o do médium. O objeto, assim momentaneamente vivificado, age como um ser vivo com a diferença de não ter vontade própria e obedecer ao impulso da vontade do Espírito.

Assim, o fluido vital, dirigido pelo Espírito, dá uma vida artificial e momentânea aos corpos inertes. Sendo o perispírito formado por esse fluido, segue-se que o Espírito encarnado, por meio do seu perispírito, é quem dá vida ao corpo, mantendo-se unido a ele enquanto o organismo o permite. Quando ele se retira, o corpo morre. Então, se em lugar de uma mesa fizéssemos uma estátua de madeira, teríamos, sob a ação mediúnica, uma estátua que se moveria e daria pancadas, respondendo às nossas perguntas. Numa palavra: teríamos uma estátua animada por uma vida artificial. E como se diz mesas falantes, também se poderia dizer estátuas falantes. Quanta luz lança esta teoria sobre uma infinidade de fenômenos até agora inexplicáveis! Quantas alegorias e efeitos misteriosos vem explicar! (4)

(4) As estátuas falantes de Kardec não são uma hipótese fantástica, bastando lembrar-se as materializações em miniatura, os megafones das experiências de voz direta, as ideoplastias falantes das experiências de Imoda, na Itália, além do fenômeno clássico das mesas. O Sr. A.P. Sinnet, teósofo de renome, relata em seu livro Incidentes da Vida da Sra. Blavatsky o fato curioso de um lustre de cristal, em forma de aranha, do Palácio do Metropolita de Moscou, que se desprendeu do teto e andou no ar, como se fosse vivo, numa visita de Blavatsky ao prelado. (N. do T.)


78- Os incrédulos objetam, apesar de tudo, que o levantamento das mesas sem apoio é impossível, por contrariar a lei da gravitação. Responderemos, primeiro, que a negação não é uma prova; depois que existindo o fato, estranhamente contrário a todas as leis conhecidas, isso apenas provaria que ele se apóia em alguma lei desconhecida, pois os negadores não podem ter a pretensão de conhecer todas as leis da Natureza. Explicamos essa lei, mas isso não basta para que eles a aceitem, pois a explicação é dada por Espíritos que deixaram as vestes terrenas, em lugar daqueles que ainda as têm e envergam o fardão da Academia. Dessa maneira, se o Espírito de Arago, em vida, lhes tivesse dado essa lei, eles a aceitariam de olhos fechados, mas dada pelo mesmo Espírito, depois da morte, é apenas uma utopia. E isso por quê? Porque a morte de Arago é para eles absoluta. Não tem a pretensão de dissuadi-los disso, mas como esta objeção poderia embaraçar algumas pessoas, tentaremos respondê-las do seu mesmo ponto de vista, ou seja, fazendo abstração, por um instante, da teoria da animação factícia.

79- Quando se faz o vácuo na campânula da máquina pneumática é impossível erguê-la, tal a força de adesão que lhe dá a pressão do ar sobre ela. Deixando-se entrar o ar, a campânula se eleva com a maior facilidade, porque o ar debaixo contrabalança o de cima. Entretanto abandonada a si mesma, permanecerá no prato em virtude da lei da gravitação. Comprima-se, porém, o ar interior, dando-lhe uma densidade maior que o de cima, e a campânula se levantará apesar da gravitação. Se a corrente de ar for rápida e violenta, ela poderá manter-se no espaço sem nenhum apoio visível, como os bonecos que giram sobre os jatos de um repuxo. Por que, pois, o fluido universal, que é o elemento básico de toda a matéria, acumulando-se em torno da mesa, não teria a propriedade de aumentar ou diminuir o seu peso específico relativo, como faz o ar com a campânula, o hidrogênio com os balões, sem que fique derrogada a lei da gravitação? Conheceis todas as propriedades e toda a força desse fluido? Não. E então? Como negar um fato que não podeis explicar?

80- Voltemos à teoria do movimento da mesa. Se um Espírito pode erguer uma mesa pelo meio indicado, pode erguer qualquer outra coisa: uma poltrona, por exemplo. E se pode erguer esta poderá também ergue-la com uma pessoa sentada, havendo força suficiente. Eis, pois, a explicação desse fenômeno, cem vezes produzido pelo Sr. Home, consigo mesmo e com outras pessoas. Ele o repetiu durante uma viagem recente a Londres, e para provar que os assistentes não eram vítimas de uma ilusão de óptica, fez no teto um sinal a lápis e deixou que passassem por baixo dele. Sabe-se que o Sr. Home é um potente médium de efeitos físicos. Nesse caso, ele era a causa eficiente e o objeto. (12)

(12) Daniel Dunglas Home, famoso médium inglês que realizava especialmente fenômenos de levitação e foi estudado pelo físico Sir William Crookes. A causa eficiente é uma das causas da classificação de Aristóteles e corresponde à que se relaciona diretamente com o efeito, produzindo-o. No caso, Home era a causa eficiente, porque produzia o fenômeno, e era o objeto porque estava levitado (N. do T.)


81- Tratamos há pouco do possível aumento de peso. È um fenômeno que às vezes se produz e não tem nada de mais anormal do que a prodigiosa resistência da campânula sob a pressão da coluna atmosférica. Sob a influência de certos médiuns, objetos muito leves têm oferecido a mesma resistência, cedendo de repente ao menor esforço. Na experiência da campânula, ela realmente não pesa mais nem menos que o seu peso normal, mas parece mais pesada por efeito da causa exterior que a pressiona. O mesmo provavelmente, acontece com a mesa. Ela tem sempre o seu peso natural, pois a sua massa não foi aumentada, mas uma força exterior se opõe ao seu movimento, e essa causa pode estar nos fluidos ambientes que a penetram, como a da campânula está na pressão atmosférica. Faça-se a experiência da campânula diante de um homem ignorante: não compreendendo que o agente é o ar, que ele não vê, será fácil persuadi-lo que se trata do Diabo.
Talvez se diga que o fluido, sendo imponderável, sua acumulação não poderá aumentar o peso de um objeto. De acordo. Mas é preciso notar que só nos servimos da palavra acumulação com finalidade comparativa e não para identificação do fluido com o ar. Ele é imponderável, seja; mas a verdade é que nada o prova, sua natureza íntima nos é desconhecida e estamos longe de conhecer todas as suas propriedades. Antes de conhecer o peso do ar, ninguém podia suspeitar dos efeitos desse peso. A eletricidade é também classificada entre os fluidos imponderáveis. No entanto, um corpo pode ser fixado por uma corrente elétrica e resistir fortemente a quem pretender erguê-lo. Aparentemente, portanto, torna-se mais pesado. Do fato de não ver o suporte, seria ilógico concluir que ele não existe. O Espírito pode, pois, ter alavancas que desconhecemos. A Natureza nos prova diariamente que o seu poder não se limita ao testemunho dos nossos sentidos.
Não se pode explicar senão por uma causa semelhante o estranho fenômeno, de que há tantos exemplos, de um jovem débil e delicado erguer com dois dedos, sem esforço e como uma pena, um homem forte e robusto com a cadeira em que se assenta. E as intermitências da faculdade provam que a sua causa é estranha à pessoa que a possui. (5)

(5) A faculdade mediúnica está sujeita a intermitências e variações que mostram a sua independência da vontade pessoal do médium. Essa independência poderia ser determinada por condições orgânicas ou psíquicas, como Kardec já acentuou, mas acusam também, em muitas ocasiões, a participação ou não de inteligências estranhas ao médium, sem as quais ele não consegue a produção dos fenômenos d maneira satisfatória. É o que se verá na seqüência deste livro. (N. do T.)

Bibliografia - O Livro dos Médiuns- Editora FEB-
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