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O
Espiritismo sem Estudo leva à Crendice
–Do método- L.M (Questões
19 a 21)
19) Acredita-se geralmente que para convencer
é suficiente apresentar os fatos. Esse
parece realmente o procedimento mais lógico,
e no entanto a experiência mostra que
nem sempre é o melhor, pois freqüentemente
encontramos pessoas que os fatos mais evidentes
não convencem de maneira alguma. A que
se deve isso? É o que tentaremos demonstrar.
No Espiritismo, a questão dos Espíritos
está em segundo lugar, não constituindo
o seu ponto de partida. E é esse, precisamente,
o erro em que simplesmente as almas dos homens,
o verdadeiro ponto de partida é então
a existência da alma. Como pode o materialista
admitir a existência de seres que vivem
fora do mundo material, quando ele mesmo se
considera apenas material? Como pode crer na
existência de Espíritos ao seu
redor, se não admite seu próprio
Espírito? Em vão se amontoarão
aos seus olhos as provas mais palpáveis.
Ele contestará a todas elas, porque não
admite o princípio.
Todo ensino metódico deve participar
do conhecido para o desconhecido. Para o materialista,
o conhecido é a matéria. Parti,
pois, da matéria e tratai de lhe demonstrar,
antes de tudo, que há nele próprio
alguma coisa que escapa às leis materiais.
Numa palavra: antes de torná-lo espírita
procurai fazê-lo ESPIRITUALISTA. Mas,
para isso, é necessária outra
ordem de fatos e se deve proceder, por outros
meios, a uma forma especial de ensino. Falar-lhe
de Espíritos antes que ele esteja convencido
de ter uma alma é começar pelo
fim, pois ele não pode admitir a conclusão
se não aceita as premissas.
Antes, pois, de tentar convencer um incrédulo,
mesmo por meio dos fatos, convém assegurar-se
de sua opinião sobre a alma, ou seja,
se ele crê na sua existência, na
sua sobrevivência ao corpo, na sua individualidade
após a morte. Se a resposta for negativa,
será tempo perdido falar-lhe dos Espíritos.
Eis a regra. Não dizemos que não
haja exceção. Mas nesse caso deve
existir outra razão que o torne menos
refratário.
20) Devemos distinguir duas classes de materialistas:
na primeira estão os que são por
sistema. Para eles não há dúvida,
mas a negação absoluta, segundo
a sua maneira de raciocinar. Aos seus olhos
o homem não passa de uma máquina
enquanto vivo, mas que se desarranja e depois
da morte só deixa o esqueleto. Seu número
é felizmente bastante restrito e em parte
alguma representa uma escola abertamente declarada.
Não precisamos acentuar os deploráveis
efeitos que resultariam para a ordem social
da vulgarização de semelhante
doutrina. Entendemo-nos suficientemente a respeito
em O Livro dos Espíritos (no. 147 e parágrafo
III da Conclusão).
Quando dissemos que a dúvida dos incrédulos
cessa diante de uma explicação
racional, é necessário excetuar
os materialistas radicais, que negam toda a
potência e qualquer princípio inteligente
fora da matéria. A maioria se obstina
nessa opinião por orgulho e acha que
deve mantê-la por amor-próprio.
Persistem nela apesar de todas as provas contrárias
porque não querem ficar por baixo. Nada
se tem a fazer com eles. Nem se deve acreditar
na falsa expressão de sinceridade dos
que dizem: Fazei-me ver e acreditarei. Há
os que são mais francos e logo dizem:
Mesmo se eu visse não acreditaria.
21) A segunda classe de materialistas, muito
mais numerosa, compreende os que o são
por indiferença, e, podemos dizer, por
falta de coisa melhor, já que o materialismo
real é um sentimento antinatural. Não
o são deliberadamente e o que mais desejam
é crer, pois a incerteza os atormenta.
Sentem uma vaga aspiração do futuro,
mas esse futuro lhes foi apresentado de maneira
que sua razão não pode aceitar,
nascendo daí a dúvida, e como
conseqüência da dúvida, a
incredulidade. Para eles, pois, a incredulidade
não se apóia num sistema. Tão
logo lhes apresenteis alguma coisa de racional,
eles a aceitarão com ardor. Esses podem
nos compreender, porque estão mais próximos
de nós do que poderiam supor. Com os
primeiros, não faleis de revelação,
nem de anjos ou do Paraíso, pois, não
compreenderiam. Mas colocai-vos no seu próprio
terreno e provai-lhes primeiro, que as leis
da Filosofia não podem explicar tudo:
o resto virá depois. A situação
é outra quando não se trata de
incredulidade preconcebida, pois nesse caso
a crença não foi totalmente anulada
e permanece como germe latente, asfixiado pelas
ervas daninhas, que uma centelha pode reanimar.
É o cego a que se restitui a vista e
que se alegra de rever a luz, é o náufrago
a que se atira uma tábua de salvação.
Incrédulos de má
vontade – L.M.(Questão 22)
Ao lado dos materialistas propriamente ditos
há uma terceira classe de incrédulos
que, embora espiritualistas, pelo menos no nome,
não são menos refratários
ao Espiritismo: são os incrédulos
de má vontade. Esses não querem
crer, porque isso lhes perturbaria o gozo dos
prazeres materiais. Temem encontrar a condenação
de sua ambição, do seu egoísmo
e das vaidades humanas que se deliciam. Fecham
os olhos para não ver e tapam os ouvidos
para não ouvir. Só podemos lamentá-los.
Incrédulos por covardia
e escrúpulo religioso – L.M. (Questão
24)
Além dessas categorias de opositores
há uma infinidade de variações,
entre os quais se podem contar os incrédulos
por covardia, que terão coragem quando
verificarem que os outros não foram prejudicados;
os incrédulos por escrúpulo religioso,
que um ensino esclarecido fará ver que
o Espiritismo se apóia nos próprios
fundamentos da Religião e respeita todas
as crenças, tendo como um de seus efeitos
despertar os sentimentos religiosos nos descrentes,
fortalecendo-os nos vacilantes; os incrédulos
por orgulho, por espírito de contradição,
por negligência, por leviandade, etc.
Incrédulos por decepção
– L.M. (Questão 25)
Não podemos esquecer uma categoria
que chamaremos de incrédulos por decepção.
Abrange os que passaram de uma confiança
exagerada à incredulidade, por terem
sofrido desilusões. Assim, desencorajados,
abandonaram tudo e tudo rejeitaram. São
como aquele que negasse a boa fé por
ter sido enganado. São ainda a conseqüência
de um estudo incompleto do Espiritismo e da
falta de experiência. Aquele que é
mistificado por Espíritos, geralmente
é porque lhes fez perguntas indevidas
ou que eles não podiam responder, ou
porque não estavam bastante esclarecidos
para distinguir a verdade da impostura. Muitos,
aliás, só vêem o Espiritismo
como uma forma de adivinhação
e pensam que os Espíritos existem para
ler a buena-dicha. Ora, os Espíritos
levianos e brincalhões não perdem
a oportunidade de se divertirem à sua
custa: é assim que anunciarão
casamentos para as moças; honrarias,
heranças e tesouros ocultos para os ambiciosos,
e assim por diante. Disso resultam, freqüentemente,
desagradáveis decepções,
de que o homem sério e prudente sabe
sempre se preservar.
Espíritas vacilantes
– L.M. (Questão 26)
Uma classe muito numerosa, a mais numerosa
de todas, mas que não poderia figurar
entre os opositores, é a dos vacilantes.
São geralmente espiritualistas por princípio.
Na sua maioria têm uma vaga intuição
das idéias espíritas e desejam
alguma coisa que não podem definir. Falta-lhes
apenas coordenar e formular os seus pensamentos.
O Espiritismo aparece-lhes como um raio de luz:
é a claridade que afugenta as névoas.
Por isso o acolhem com sofreguidão, pois
ele os liberta das angústias da incerteza.
Espíritas sem o saber
– L.M. (Questão 27)
Se lançarmos agora um olhar sobre
as diversas categorias de crentes, encontraremos
primeiro os espíritas sem o saber. São
uma variedade ou uma subdivisão da classe
dos vacilantes. Sem jamais terem ouvido falar
da Doutrina Espírita, têm o sentimento
inato dos seus grandes princípios e esse
sentimento se reflete em algumas passagens de
seus escritos ou de seus discursos, de tal maneira
que, ouvindo-os, acredita-se que sejam verdadeiros
iniciados. Encontram-se numerosos desses exemplos
entre os escritores sacros e profanos, entre
os poetas, os oradores, os moralistas, os filósofos
antigos e modernos.
Espíritas experimentadores
– L.M. (Questão 28)
Entre os que convenceram estudando diretamente
o assunto podemos distinguir:
1º) Os que acreditam pura e simplesmente
nas manifestações. Consideram
o Espiritismo como uma simples ciência
de observação, apresentando uma
série de fatos mais ou menos curiosos.
Chamamo-los: espíritas experimentadores.
2º) Os que não se interessam apenas
pelos fatos e compreendem o aspecto filosófico
do Espiritismo, admitindo a moral que dele decorre,
mas sem a praticarem. A influência da
Doutrina sobre o seu caráter é
insignificante ou nula. Não modificam
em nada os seus hábitos e não
se privariam de nenhum de seus prazeres. O avarento
continua insensível, o orgulhoso cheio
de amor-próprio, o invejoso e o ciumento
sempre agressivos. Para eles, a caridade cristã
não passa de uma bela máxima.
São os espíritas imperfeitos.
3º) Os que não se contentam em admirar
apenas a moral espírita, mas a praticam
e aceitam todas as suas consequências.
Convictos de que a existência terrena
é uma prova passageira, tratam de aproveitar
os seus breves instantes para avançar
na senda do progresso, única que pode
elevá-los de posição no
Mundo dos Espíritos,esforçando-se
para fazer o bem e reprimir as suas más
tendências. Sua amizade é sempre
segura, porque a sua firmeza de convicção
os afasta de todo mau pensamento. A caridade
é sempre a sua regra de conduta. São
esses os verdadeiros espíritas,ou melhor
os espíritas cristãos. (1)
4º) Há, por fim, os espíritas
exaltados. A espécie humana seria perfeita,
se preferisse sempre o lado bom das coisas.
O exagero é prejudicial em tudo. No Espiritismo
ele produz uma confiança cega e freqüentemente
pueril nas manifestações do mundo
invisível, fazendo aceitar muito facilmente
e sem controle aquilo que a reflexão
e o exame demonstrariam ser absurdo ou impossível,
pois o entusiasmo não esclarece, ofusca.
Esta espécie de adeptos é mais
nociva do que útil à causa do
Espiritismo. São os menos capazes de
convencer, porque se desconfia com razão
do seu julgamento. São enganados facilmente
por Espíritos mistificadores ou por pessoas
que procuram explorar a sua credulidade. Se
apenas eles tivessem de sofrer as consequências
o mal seria menor, mas o pior é que oferecem,
embora sem querer, motivos aos incrédulos
que mais procuram zombar do que se convencer
e não deixam de imputar a todos o ridículo
de alguns. Isso não é justo nem
racional, sem dúvida, mas os adversários
do Espiritismo, como se sabe, só reconhecem
como boa a sua razão e pouco se importam
de conhecer a fundo aquilo de que falam.
(1) Sendo o Espiritismo uma doutrina eminentemente
cristã, essa designação
de espírita cristão pode parecer
redundante. Por outro lado, poderia sugerir
a existência de uma forma de Espiritismo
não-cristão, que na verdade não
existe. Kardec a emprega, porém, como
designação do verdadeiro espírita,
para distinguir estes daqueles que não
seguem, como se vê acima, os princípios
do Espiritismo. (N.do T.)
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